Psicóloga / Psicanalista Flavia Bonfim - Atendimento - Cursos - Eventos - Textos
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segunda-feira, 15 de abril de 2019

CURSO: PSICANÁLISE E INSTITUIÇÕES DE SAÚDE (SINGULAR - CPP)






SINGULAR – CENTRO DE PSICOLOGIA E PSICANÁLISE

 CURSO: PSICANÁLISE E INSTITUIÇÕES DE SAÚDE      

DATA: 11/05/2019 (sábado)                 
 Horário: 8:30 as 17:00 h
Local: Rua Mem de Sá, 34 - Icaraí – Niterói/ RJ
  
 Investimento:    Até dia 30/04 – R$ 100,00
                              Após dia 30/04 – R$ 120,00
 - Com certificado

Inscrições e Informações:
Telefones: (21) 98084-8176 / 2613-3947
E-mail: contato@singularcpp.com

CONTEÚDO  PROGRAMÁTICO:
  • Psicanálise e instituição
  • Teoria dos discursos
  • O corpo para psicanálise
  • Consequências psíquicas do adoecimento
  • Psicossomática
  • Trabalho em equipe
  • A função do psicanalista nas instituições de saúde
  • Ética Lacaniana
  • A clínica da origem
  • Atendimento em grupo
  • Intervenção com a família e/ou cuidador


Docente: Flavia Bonfim
Psicóloga. Psicanalista. Doutoranda em Psicologia (UFF). Mestre em Pesquisa e Clínica em Psicanálise (UERJ).  Fundadora da SINGULAR – CPP.  Autora de artigos publicados em revistas cientificas de psicologia e psicanálise. Atuou mais de 10 anos em Centro de reabilitação física, além de possuir experiência na área hospitalar. 

terça-feira, 9 de abril de 2019

PÓS-GRADUAÇÃO "CLÍNICA PSICANALÍTICA NA CONTEMPORANEIDADE" (UNILASALLE - NITERÓI/RJ)




O curso de especialização “A clínica psicanalítica na contemporaneidade” busca atender à demanda regional de psicólogos e outros graduados interessados no campo analítico que querem aprofundar-se teórica e clinicamente em sua atividade profissional. Sua matriz curricular, baseada na teoria e na clínica psicanalíticas, engloba não apenas fundamentos teóricos e clínicos presentes nas obras de Sigmund Freud e Jacques Lacan, como também questões atuais de seu exercício nos contextos público e privado.

Público-alvo: Psicólogos e outros graduados interessados no campo analítico.

Coordenação: Simone Ravizinni e Carla Sá Freire

Horário: Sábado, de 8:00 as 17:00 h

Inicio: Maio/2019

Corpo Docente: Simone Ravizinni, Carla Sá Freire, Ana Lucia Garcia, Raymundo Reis, Flavia Bonfim e Elizabeth Araújo. 

quinta-feira, 7 de março de 2019

CURSO: OS QUATRO CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA PSICANÁLISE (SINGULAR - Centro de Psicologia e Psicanálise)



SINGULAR - Centro de Psicologia e Psicanálise


CURSO:  OS QUATRO CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA PSICANÁLISE   
                   ( Inconsciente, Repetição, Transferência e Pulsão )
        
DATA: 
13/04/2019 (sábado)                  
Horário: 
8:30 as 17:30 h 
Local: 
Rua Mem de Sá, 34 (Auditório) - Icaraí – Niterói/ RJ

- O curso oferece CERTIFICADO. 

Investimento:Até dia 22/03 – 100,00 
Após dia 22/03 – 120,00

Objetivo do curso: Apresentar a definição e um breve percurso dos conceitos de inconsciente, repetição, transferência e pulsão de Freud a Lacan, como seus atravessamentos clínicos, além de contar com a discussão de casos.

Docente:  Livia Ferreira 
Psicóloga. (UFF). Psicanalista. Doutoranda em Psicologia (UFF). Mestre em Psicologia Social (UFS). Experiência como docente na Universidade Federal de Sergipe e no Centro Universitário AGES (Bahia), além de já ter atuado no campo da saúde mental e na clínica psicanalítica. Pesquisa temas associados à psicanálise pura e aplicada, de orientação lacaniana, nas suas interfaces com a saúde e cultura contemporânea.   

Inscrições e Informações:
Telefones: (21) 98084-8176 / 2613-3947
E-mail: contato@singularcpp.com



domingo, 17 de fevereiro de 2019

ARTIGO: A CONTEMPORANEIDADE E A ERÓTICA DA EXPERIMENTAÇÃO - REVISTA LATUSA 23


A CONTEMPORANEIDADE E A ERÓTICA DA EXPERIMENTAÇÃO[1].


Artigo publicado na Revisa Latusa, número 23 - "DESIGUAL! 
Identidades e identificações na polis 
e na análise, p. 85 - 93
 
Autores: 
*Paulo Eduardo Viana Vidal
Psicanalista. Professor da UFF. Doutor em Teoria Psicanalítica pela UFRJ.  Membro aderente da Seção Rio da EBP.
*Flavia Bonfim
Psicóloga. Psicanalista. Doutoranda em Psicologia pela UFF. 
Mestre em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ.



Resumo: A proposta deste artigo é discutir como o mundo contemporâneo tem promovido respostas para ausência de relação sexual por meio de uma erótica da experimentação. Para entrar neste debate, tomamos como exemplo as experiências bissexuais e seguimos nesta discussão com as teorizações psicanalíticas em torno da sexualidade, bem como de uma leitura da nova ordem simbólica do século XXI.
Palavras-chaves: bissexualidade, contemporaneidade, sexualidade e experimentação.



I Kissed a Girl [2]

“I kissed a girl and I liked it
The taste of her cherry chap stick
I kissed a girl just to try it
I hope my boyfriend don't mind it
It felt so wrong
It felt so right
Don't mean I'm in love tonight
I kissed a girl and I liked it
I liked it
No, I don't even know your name
It doesn't matter
You're my experimental game”


“I kissed a girl”… Música de uma famosa cantora americana de pop-rock chamada Katty Perry, cujo público é em sua maioria adolescentes e jovens. A letra foi composta em 2008 e fala de uma garota heteressexual que experimenta pela primeira vez o beijo de outra menina, tendo sido composta a partir de uma conversa que a artista teve com o namorado no qual cogitou a possibilidade de beijar outra mulher.
Mas o que pode interessar à psicanálise esse hit americano?
I kissed a girl”  permaneceu no topo da parada de sucessos nos EUA, Austrália, Reino Unido e Canadá. No Brasil, sua repercurssão foi igualmente notável. Nesse sentido, não podemos ignorar seus efeitos midiáticos, nem menosprezar que os avanços tecnológicos da comunicação tem um importante papel na repetição das canções e no que elas passam a engendrar. A música também é um modo de produção de subjetividade. Ela não só representa ou reflete fatos, realidades, mas os produz e os ordena.
Essa música foi alvo de intensa polêmica na época em que foi lançada na medida em que descortinou o tema da prática bissexual. Todavia, chama a atenção dois trechos da letra: 1) I kissed a girl just to try it” [Eu beijei uma garota só para experimentar] e 2)  You're my experimental game” [Você é meu jogo experimental]. Para além do tema da “bissexualidade” em si, o que se ressalta nesta letra é a possibilidade de experimentar no terreno sexual, sendo, portanto, alvo de interesse pensar a que responde essas modalidades de comportamento na esfera da sexualidade, no qual se verifica uma erótica da experimentação.
Mesmo considerando a noção de “bissexualidade” um tema complexo, não recuaremos em tomá-lo em discussão, ainda que parcialmente. Mais ainda,  tem-se como proposta destacar como a tecnologia, a globalização, a mídia e o capitalismo são capazes de produzir consequências nas formas de parcerias sexuais – o que nos conduz a interrogar sobre as marcas de nosso tempo na construção da subjetividade. Para tanto, nos serviremos das teorizações psicanalíticas em torno da sexualidade, bem como de uma leitura da nova ordem simbólica do século XXI.

A “bissexualidade” em Freud e a sexuação em Lacan

O tema da “bissexualidade” foi tratado por Freud a partir da influência de Wilhelm Fliess – apesar deste, diferentemente do que encontramos na obra freudiana, ter defendido primordialmente esta noção a partir da referência a uma “bissexualidade biológica”. Por meio da noção de “bissexualidade”, Freud sustentou que o ser humano possui uma disposição sexual masculina e feminina, sendo que uma corrrente encontra-se mais recalcada em relação a outra em função dos conflitos que o sujeito estabelece para assumir sua sexualidade.
Em 1905, Freud[3] propõe que, devido ao caráter bissexual do sujeito, é somente na adolescência que se estabelece a diferenciação homem e mulher. Frente a esta disposição bissexual, Freud[4] argumenta que a escolha objetal é guiada pelos indícios infantis, na medida em que o sujeito se põe a buscar o objeto em consonância com sua inclinação sexual advinda da influência dos pais. Ou seja, são as raízes edípicas que determinam a escolha objetal. Trata-se assim de uma escolha que precisa se preciptar, se concluir para em seguida poder guiar o sujeito em direção a um parceiro.
A partir do último ensino de Lacan, podemos situar que o Édipo e a discussão em termos de identificações não são suficientes para o debate sobre a sexualidade, tal como Freud sustentou. Lacan[5] avança nesta questão ao demarcar que a diferença sexual se opera em termos de modalidades de gozo – gozo fálico nos homens e não-todo fálico nas mulheres. Esses termos, porém, não se referem “a anatomia ou ao gênero, mas ao corpo falante, ao sujeito e as suas marcas de gozo, à realidade sexual do inconsciente e à dimensão sintomática que lhe corresponde.”[6]
Leguil[7] afirma que ser homem ou ser mulher passa por um processo de interpretação inédita do sexual, já que é necessário inventar sua própria relação com o gênero. Esse processo tem como fundamento sua experiência singular com o desejo, com o gozo e a forma como a virilidade e a feminilidade foram apresentadas a eles por meio do encontro com o pai, a mãe, com outros homens e mulheres ao longo de sua história constitutiva de sujeito, com toda a precariedade que envolve a relação do sujeito com seu corpo, seu sexo e com o Outro.[8] Todavia, na contemporaneidade alguns sujeitos parecem negligenciar essa dimensão e respondem a problemática do sexual a partir dos ideiais da sociedade de consumo e de elogio à experimentação em que vivemos, bem como em termos de identidades.

A nova ordem simbólica no século XXI

Na sociedade capitalista atual, promove-se ser possível gozar de tudo e de diferentes formas. Ganha cada vez mais força o imperativo da satisfação e das ofertas de gozo. Segundo Laurent, o corpo do outro também se coloca como uma oferta a se consumir, respondendo a “empuxo-ao-hedonismo contemporâneo”[9]. Leguil[10] aponta que os sujeitos hipermodernos da incansável conexão mantém uma relação com o pleno e o excesso, no qual o sexo tornou-se também um produto mercantil. Os objetos tecnológicos inseparáveis e as exigências de satisfação solicitam os corpos sexuados permanentemente, sem deixar lugar para falta. Como consequência, Vicente[11] pondera que  o amor tornou-se frágil, fugaz, voraz, e até um amor louco, na medida em que pode não estar situado nos limites da lei.
Na contemporaneidade, a sexualidade tem-se associado cada vez mais à tecnologia de modo que hoje em dia, dispomos de várias aplicativos – entre os mais famosos: Happn, Tinder –, que promovem facilidade de encontros, no qual os futuros parceiros são escolhidos como em um “cardápio” – para utilizar a expressão de um paciente. Os nudes, fotos de nu total ou parcial, enviadas por whatsapp também tem se dissimidado de forma intensa sem a necessidade de um maior envolvimento entre os sujeitos. Não raro acontece que as mensagens trocadas pelo whatsapp rapidamente evoluem para encontros destinados ao sexo casual, antes mesmo que tais parceiros já tenham se encontrado, contando apenas com o meio virtual como parâmetro. Experimenta-se e vale dizer que não demora muito para o parceiro ser descartado.
Diante disso, podemos verificar como o avanço da ciência, do capitalismo e da globalização foram capazes de influenciar significativas mudanças no comportamento e nas formas de laço social. Forbes[12] considera que a sociedade vem criando novas soluções ao mesmo tempo surgem novos problemas. Analisando o cerne destas modificações, Forbes[13] propõe que passamos de uma estruturação vertical, masculina – referida a um gozo passível de ser significantizado – para uma horizontalidade, feminina – fazendo referência a um gozo real, que toca o corpo; gozo além da significação. É, nesse sentido, que o psicanalista considera que vivenciamos um  momento “além do Édipo”, tendo em vista que a figura do pai já não é central, pelo contrário, ele pode até se multiplicar. De acordo com Lacadée[14], a contemporaneidade reserva um lugar restrito para as figuras idealizadas dos homens de exceção, que transmitem a castração e a lei – o que se manifesta através de uma intensa destituição da autoridade e do crédito dado ao pai.
Alvarenga[15]  afirma que estamos diante de uma nova ordem simbólica no século XXI no qual se identifica uma precariedade dos laços e dos sentidos – um simbólico desencarnado pela queda dos ideais. Do mesmo modo, Vicente[16]  destaca que no tempo de Freud os ideais eram orientadores na medida em que serviam de bússola para o sujeito mascarar o desencontro entre os sexos; ao passo que no século XXI, são os objetos oferecidos pelo mercado, os gadgets, que ocupam o lugar de orientar o sujeito quanto aos impasses da ausência de relação sexual. Aceitando ou não tais ideais, eles favoreciam uma possibilidade maior de localização subjetiva. 



As experiências bissexuais na contemporaneidade

Godoy [17]  propõe que a idéia de maior “liberdade sexual” na atualidade produziu uma banalização do sexo e identificou que a falha no gozo seria decorrente da repressão social. A psicanálise, porém, continua Godoy[18], nos ensina a tomar essa falha como inerente ao trauma, ao furo advindo da linguagem. A sexualidade põe em jogo o real e por isso sempre comporta uma desordem. A tentativa de reinterpretação quanto ao campo da sexualidade não implicou, entretanto, que as dificuldades em torno da falta de saber quanto ao sexual tenham se dissolvido.
No que concerne propriamente “as experiências bissexuais”, Godoy[19] nos lembra que as distinções “heterossexualidade”, “homossexualidade” e “bissexualidade” não eram aplicáveis, por exemplo, ao mundo grego e romano, de modo que durante séculos as práticas homossexuais coexistiram com as heterossexuais, sendo aceitas e consideradas dentro de certas normas. Foi somente com o surgimento da moral cristã que se produziu uma nova configuração de sexualidade: o binário heteronormativo homem e mulher. Isso nos permite assim levar em conta como cada época tem modos distintos de ordenar o sexo, construindo suas normas e segregações – inevitavelmente, sempre sintomáticas.
Godoy[20]  considera que a “bissexualidade” no século XXI responde a uma sociedade que libera os modos de gozo e os ordenas em identidades. Na contemporaneidade, o termo “bissexual” não vem demarcar a possibilidade de passagem para uma homossexualidade tal como verificamos em Freud, mas se constitui uma orientação permanente.
 A “bissexualidade” tornou-se um novo significante identificatório, ainda que mesmo dentro do movimento LGBT enfrente um questionamento quanto a esse tipo de “opção” e tenha menor visibilidade. Não raro é tomado como um problema de indecisão ou confusão quanto a sexualidade. Ou ainda, é vista como uma homossexualide negada por parte dos homens ou prática de mulheres que só querem experimentar.
Sem adentrar nessa discussão, o que se pretende ressaltar é que tais significantes se proliferaram (gay, queer, straight, bissexual, transgênero...), fundando grupos que demandam seu direito à diferença. Soluções contemporâneas que buscam pela via do “ser” produzir um ancoramento ao sujeito, mas que escamoteiam o gozo de cada um, seus desencontros amorosos e sua relação com o inconsciente.[21] Segundo Machado[22], ainda que a multiplicidade de gêneros e a diversidade de identidades obtenha respaldo social, ainda que a cultura indique novos modos de comportamentos, ela não elimina o principal que é o fato do sujeito sempre ter que se responsabilizar pelo seu modo de gozo.
Forçando um pouco mais essa discussão, questionamos se essas experiências bissexuais poderiam ser uma tentativa atual de chegar a alguma espécie de conclusão acerca da posição sexual?  Ou se seriam uma via de evitar o encontro com o Outro sexo? Não propomos aqui uma resposta definitiva para essa questões. Seria necessário pensar no caso a caso. Por outro lado, é inegável que o social e a cultura comporta hoje em dia possibilidades outras que influenciam significativamente nos comportamentos e nas respostas dadas aos impasses sexuais.
Pensar a questão das experiências bissexuais através de uma tentativa de “conclusão”, de “descoberta da sexualidade”, como alguns jovens parecem situá-las,  nos leva a algumas considerações, bem como a outras dificuldades. O problema da escolha sexual é uma dúvida inerente à neurose. Discutindo a questão da conclusão a respeito da posição sexuada, Reymundo[23] destaca que a adolescência é um tempo de compreender, momento de concluir, sempre singular, que diante da inexistência de um saber do que fazer com seu sexo, o sujeito recoloca sua escolha de objeto e sua escolha na posição sexuada. Contudo, ele observa que esse momento tem sido estendido, não tanto por um não querer saber, mas por uma rejeição a pensar sobre a verdade do desejo, visto que o momento da civilização convoca mais ao gozo do que o desejo.
Se a conclusão a respeito de uma posição sexual é buscada a partir dos ideais de experimentação da sociedade de consumo, ela, portanto, tende a fracassar na medida que o tempo de compreender requer elaboração, requer produção de novos sentidos e não de novas experiências pautadas no imperativo de satisfação. Esse tempo de compreender requer uma postura ética do sujeito em relação a seu desejo e ao que faz do seu gozo.
Não obstante, no que refere ao encontro com o Outro sexo, esse não se dá sem dificuldades seja para os homens, quanto para as mulheres.   Para Lacan[24],  A mulher, tal como o é para o homem, é Outro dela mesma; ela é para ela o próprio desconhecido, o não-todo. Assim, tanto o homem quanto a mulher precisam se haver com o caráter enigmático advindo do confronto com o Outro sexo. O Outro sexo é sempre feminino.  Para mulher, conectar-se ao homem é a condição para ela ter acesso ao gozo não-todo, mas não sem se confrontar com toda instabilidade que isso lhe causa.
No que concerne as práticas bissexuais, Sinatra[25] identifica que algumas mulheres recorrem a essas experiências justamente no momento em que antecede o encontro sexual com um homem – o que confirmaria sua posição heterossexual. Sinatra[26] entende que essa solução sintomática busca subtrair a “pequena diferença”, quer dizer: o gozo sexual que o encontro com o homem pode lhe proporcionar. Esses casos permitem, então,  assimilar que uma mulher pode tentar encontrar uma resposta a respeito do gozo feminino por uma relação com o Outro sexo não sustentado no plano simbólico, como Dora tentou, mas pelo real do encontro homossexual. Assim, uma mulher pode buscar uma resposta não através do seu corpo pela mediação do encontro com homem, que a permite ter acesso ao gozo genital feminino que a transformaria em Outra para ela mesma,  mas através do corpo de outra mulher. Ou seja, alguns sujeitos podem então se utilizar de um discurso de livre eleição sexual sustentado pelo imaginário social e recorrer a essas experiências de experimentação bissexual como uma tentativa de retroceder frente ao encontro sexual. Temos aquí uma questão levantada!

Últimas considerações…

Frente ao que foi exposto, podemos considerar que, na atualidade, contamos com uma variedade de signos que denunciam a modificação das relações entre homens e mulheres. Os semblantes que ordenavam as relações entre os sexos já não são mais os mesmos, nem as formas de gozo. De modo específico, é possível recolher como as (não)relações tem sido sustentadas através de uma erótica da experimentação, no qual os objetos tecnológicos, a mídia, o capitalismo e as exigências de satisfação demandam cada vez mais respostas do sujeito por meio do seus corpos sexuados. O campo sexual, portanto, não escapou dos ideais da sociedade de consumo.
Ventura[27] observa que um dos efeitos do declínio da ordem simbólica é a fragmentação e a dispersão – o que nos permite compreender a forma pela qual a sexualidade se apresenta no século XXI. Por outro lado, convém lembrar que cada época tem sua maneira de responder aos impasses da ausência de relação sexual e seria ingênuo advogarmos em prol de um tempo passado. O que vale então ressaltar é que qualquer dessas soluções sempre serão sintomáticas. Esse é então o desafio que se coloca para nós analistas na contemporaneidade, tendo em vista que “as mudanças de nosso mundo nos interrogam e nos levam a dar repostas a elas, de forma a não negligenciar o real que nos concerne.”[28]

REFERÊNCIAS:

ALVARENGA, Elisa. Protesto feminino ou aspiração à feminilidade? Em: CALDAS, H, Murta, A. & MURTA, C. (orgs.) O feminino que acontece no corpo: a prática da psicanálise nos confins do simbólico. Belo Horizonte: Scripitum Livros, 2012.

DRUMMOND, Cristina. O amor, essa palavra. Em:  Curinga - Revista da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP-MG),  n° 24.  Minas Gerais, 2007. 53-62 p.

FORBES, Jorge. Aforismos para uma psicanálise do século XXI. Em: CALDAS, H, Murta, A. & MURTA, C. (orgs.) O feminino que acontece no corpo: a prática da psicanálise nos confins do simbólico. Belo Horizonte: Scripitum Livros, 2012.

FREUD. Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Em: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira. Rio de janeiro: Imago Ed., 1996. v. VII. 128 – 229 p.

GODOY, Claudio. Bissexualidade. Em: Scilicet: A ordem simbólica no século XXI. – Associação Mundial de Psicanálise.  Belo Horizonte: Scriptium Livros, 2012.

LACADÉE, Phillipe. O despertar e o exílio: ensinamentos psicanalíticos das mais delicada das transições, a adolescência. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2011. 175 p.

LACAN, Jacques. O Seminário 20 - Mais, ainda (1972-73). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

LAURENT, Éric. A psicanálise e a escolha das mulheres. Belo Horizonte: Scriptium Livros, 2012.

LEGUIL, Clotilde. O ser e o gênero: homem e mulher depois de Lacan. Belo Horizonte: EBP Editora, 2016.

MACÊDO, Luciola. Notas sobre identidade de gênero e sexuação. Em: Opção Lacaniana online, n. 19, março de 2016. Disponível em:
http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_19/Notas_sobre_identidade_de_genero_e_sexuacao.pdf Acesso em 10/08/2017.

MACHADO, Ondina. Sexo na rede. In: CALDAS, H. Errâncias, adolescências e outras estações. Belo Horizonte: Editora EBP, 2016.

REYMUNDO, Oscar. Adolescências: tempo de compreender e posição sexuada. In: CALDAS, H. Errâncias, adolescências e outras estações. Belo Horizonte: Editora EBP, 2016.

SINATRA, Ernesto. ¡Al fin hombres al fin! – Buenos Aires: Grama Ediciones, 2010. 340 p.

VENTURA, Oscar. Sexualidade (novas formas). Em: MACHADO, O. & RIBEIRO, V. (org.) Scilicet: Um real para o século XXI - Belo Horizonte: Scriptium Livros, 2014.

VICENTE, Sônia. O desencanto do amor. Em: CALDAS, H, Murta, A. & MURTA, C. (orgs.) O feminino que acontece no corpo: a prática da psicanálise nos confins do simbólico. Belo Horizonte: Scripitum Livros, 2012.









[1] Parte do trabalho intitulado “Contemporaneidade, modos de gozo e identidades.”,  apresentado nas XXV Jornadas Clínicas da EBP-Rio e ICP -  “Loucuras e amores na Psicanálise”.

[2] Trecho da Música de Katty Perry - Eu Beijei Uma Garota - Eu beijei uma garota e gostei disso/ Do gosto do brilho labial de cereja dela/ Eu beijei uma garota só para experimentar/ Espero que meu namorado não se importe / Pareceu tão errado, pareceu tão certo / Não significa que estou apaixonada essa noite / Eu beijei uma garota e gostei disso / Eu gostei disso / Não, eu nem ao menos sei seu nome/ Isso não importa / Você é meu jogo experimental [Tradução nossa].

[3] FREUD. Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Em: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira. Rio de janeiro: Imago Ed., 1996. v. VII. 128 – 229 p.
[4] FREUD. Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Em:  Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira. Rio de janeiro: Imago Ed., 1996. v. VII.
[5] LACAN, Jacques. O Seminário 20 - Mais, ainda (1972-73). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
[6] MACÊDO, Luciola. Notas sobre identidade de gênero e sexuação. Em: Opção Lacaniana online, n. 19, março de 2016,  p. 5-6.. Disponível em:
http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_19/Notas_sobre_identidade_de_genero_e_sexuacao.pdf Acesso em 10/08/2017
[7] LEGUIL, Clotilde. O ser e o gênero: homem e mulher depois de Lacan. Belo Horizonte: EBP Editora, 2016.
[8] Ibid., ibid.
[9] LAURENT, Éric. A psicanálise e a escolha das mulheres. Belo Horizonte: Scriptium Livros, 2012. p.184-185.
[10] LEGUIL, Clotilde. O ser e o gênero: homem e mulher depois de Lacan. Belo Horizonte: EBP Editora, 2016.
[11] VICENTE, Sônia. O desencanto do amor. Em: CALDAS, H, Murta, A. & MURTA, C. (orgs.) O feminino que acontece no corpo: a prática da psicanálise nos confins do simbólico. Belo Horizonte: Scripitum Livros, 2012.
[12] FORBES, Jorge. Aforismos para uma psicanálise do século XXI. Em: CALDAS, H, Murta, A. & MURTA, C. (orgs.) O feminino que acontece no corpo: a prática da psicanálise nos confins do simbólico. Belo Horizonte: Scripitum Livros, 2012.
[13] Ibid.
[14] LACADÉE, Phillipe. O despertar e o exílio: ensinamentos psicanalíticos das mais delicada das transições, a adolescência. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2011. 175 p.
[15] ALVARENGA, Elisa. Protesto feminino ou aspiração à feminilidade? Em: CALDAS, H, Murta, A. & MURTA, C. (orgs.) O feminino que acontece no corpo: a prática da psicanálise nos confins do simbólico. Belo Horizonte: Scripitum Livros, 2012.
[16] VICENTE, Sônia. O desencanto do amor. Em: CALDAS, H, Murta, A. & MURTA, C. (orgs.) O feminino que acontece no corpo: a prática da psicanálise nos confins do simbólico. Belo Horizonte: Scripitum Livros, 2012.
[17] GODOY, Claudio. Bissexualidade. Em: Scilicet: A ordem simbólica no século XXI. – Associação Mundial de Psicanálise.  Belo Horizonte: Scriptium Livros, 2011.
[18] Ibid.
[19] Ibid.
[20] Ibid.
[21] Ibid., ibid.
[22] MACHADO, Ondina. Sexo na rede. Em: CALDAS, H. Errâncias, adolescências e outras estações. Belo Horizonte: Editora EBP, 2016.
[23] REYMUNDO, Oscar. Adolescências: tempo de compreender e posição sexuada. Em: CALDAS, H. Errâncias, adolescências e outras estações. Belo Horizonte: Editora EBP, 2016.
[24] LACAN, Jacques. O Seminário 20 - Mais, ainda (1972-73). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
[25] SINATRA, Ernesto. ¡Al fin hombres al fin! – Buenos Aires: Grama Ediciones, 2010. 340 p.
[26] Ibid.
[27] VENTURA, Oscar. Sexualidade (novas formas). In: MACHADO, O. & RIBEIRO, V. (org.) Scilicet: Um real para o século XXI - Belo Horizonte: Scriptium Livros, 2014
[28] DRUMMOND, Cristina. O amor, essa palavra. In:  Curinga - Revista da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP-MG),  n° 24.  Minas Gerais, 2007. p. 53.