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sábado, 20 de outubro de 2018

Psicanálise e Racismo: algumas indicações de leituras


POR FLAVIA BONFIM

Precisamos começar a refletir na psicanálise sobre os efeitos do racismo enquanto modalidade particular de sofrimento psíquico da negritude no Brasil. Esse tema carece de uma elaboração consistente no campo psicanalítico, tendo em vista que mais da metade da população brasileira é composta por pessoas negras e esse assunto não recebeu até hoje pela maioria dos psicanalistas a devida atenção. Nesse sentido, proponho aqui algumas indicações de leituras, que podem ser encontradas online, de modo que estejamos à altura de uma clínica realizada em território brasileiro.

Antes, porém, de adentrarmos propriamente nos textos psicanalíticos, é imprescindível entendermos o que é o racismo. Como afirma o advogado e filósofo Silvio Almeida, o racismo não deve ser pensado apenas como um ato ou um conjunto de atos discriminatórios, mas como um processo sistemático que promove condições de subalternização para um grupo racial (negros) e privilégios para outro grupo (brancos). Para ele, o racismo no Brasil é estrutural, fundamentado por um processo histórico e político, que constituem relações desiguais em termos sociais, políticos, econômicos e jurídicos, conferindo posições de vulnerabilidade aos negros. 

Segue o link do livro "O que é racismo estrutural?" para melhor nos orientarmos neste debate: 





Outra consideração importante nessa indicação de leituras é falar sobre Virgínia Bicudo - a primeira pessoa a deitar no divã no Brasil. Virginia era um mulher negra, que se tornou psicanalista e sua história profissional contribuiu para a difusão da psicanálise em solo brasileiro. Uma história impressionante e cheia de pioneirismos, mas que foi apagada dos livros de história tanto da sociologia (formação que inicialmente atuou) quanto da psicanálise no Brasil. 

Para conhecer a história dela, segue o artigo "Virginia Bicudo: uma história da psicanálise brasileira" das autoras Maria Helena Indig Teperman e Sonia Knopf: 



Posto isto, podemos começar com a leitura dos textos psicanalíticos. Recomendo inicialmenhte o livro “Tornar-se negro” da psicanalista Neusa Santos Souza. Neste livro, Neuza discute sobre o impasse superegóico da pessoa negra que ascende socialmente no Brasil, na medida em que constrói um ideal de brancura, impossível de ser atingido, cujo mecanismo é a negação de tudo aquilo que remete a sua negritude. Esse livro se configura como uns dos textos inaugurais e referenciais sobre essa temática no Brasil. 

Segue o link do livro em PDF:






Em segundo lugar, não podemos seguir nessa discussão sem conhecer o trabalho "Peles negras, máscaras brancas" do psiquiatra Frantz Fanon, que problematizou a questão das relações raciais a partir da dimensão do desejo, expondo os dilemas subjetivos da pessoa negra ao viver em uma sociedade colonial. 

O livro do Fanon pode ser encontrado no link abaixo: 






Retomando os estudos brasileiros, é importante pensar o problema do racismo no Brasil a partir de uma história que não foi contada e, portanto, também não permitiu ser devidamente elaborada. Recalcado, como diz a antropóloga e psicanalista Lélia Gonzalez, o racismo se constitui a "neurose cultural brasileira" - discussão que pode ser encontrada no texto chamado "Racismo e sexismo na cultura brasileira", disponível no link:

https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4584956/mod_resource/content/1/06%20-%20GONZALES%2C%20L%C3%A9lia%20-%20Racismo_e_Sexismo_na_Cultura_Brasileira%20%281%29.pdf 


Outra referência é a psicanalista Isildinha Nogueira. No seu trabalho intitulado "O corpo da mulher negra", Nogueira afirma que a sociedade estabelece sobre os corpos seus sentidos e valores - o que influenciou o modo como o corpo negro é pensado. Ou seja, em decorrência de um nefasto passado de longa escravização, o corpo negro é ainda é tomado como “peça”, “mercadoria”, “coisa”, objetificado,  desumanizado, presentificado na memória social e atualizando o preconceito racial.  Segue o link do texto:


Para pensar esse tema a partir de uma orientação lacaniana, sugiro o texto do psicanalista Jacques Alain Miller "Racismo e Extimidade", no qual ele propõe pensar o racismo como um ódio dirigido ao Outro. Esse texto pode ser encontrado no link: 


Ainda numa perspectiva lacaniana, mas agora em diálago com outros psicanalistas tais como Neusa Santos Souza, Frantz Fanon e Grada Kilomba, temos o artigo de Jefferson Nascimento e Gisele Falbo, intitulado: "Is there, for the black person, only one destiny? A psychoanalytical approach": 


Seguindo essa linha, Jefferson Nascimento e Gisele Falbo, juntamente com os autores Daniele Menezes, Rosa Schechter e Paulo Vidal, em novo artigo procuram pensar o racismo como um sintoma de discurso partindo dessa perspectiva para incluir a psicanálise nesse debate. Segue o link do artigo escrito por eles: “Das impossibilidades do racismo etnosemantico a fala como saída”:  



Além disso, deixo a minha contribuição ao tema com dois textos. No primeiro artigo “Psicanálise e Racismo: entre os tempos de ver, compreender e concluir”, escrito em co-autoria com Rosa Schechter, procuramos pensar o motivos do distanciamento dos psicanalistas do tema das relações raciais para então retomar algumas contribuições ao tema.  Segue o link do artigo: 


No segundo texto intitulado  “Alienação e separação: por uma leitura dos atravessamentos do racismo na constituição subjetiva”, procurei pensar a construção de uma psicanálise implicada com a luta antirracista e a altura de uma clínica realizada em solo brasileiro. Partindo dos conceitos de alienação e separação no ensino de Lacan, propus uma leitura sobre os atravessamentos do racismo na constituição subjetiva. No bojo dessa discussão inclui pensar qual seria o “campo do Outro” referente ao Brasil na medida em que o Outro não se restringe ao desejo materno e a lei paterna, mas também comporta o tesouro dos significantes e as marcas da cultura. Este texto faz de um capítulo do livro “Corpo e afeto: população negra em pauta”. Disponibilizo o link do livro em pdf: 




Por último, segue dois links de Revistas de Psicanálise:

1) Revista Correio Express  (Revista online da Escola Brasileira de Psicanálise) cuja edição de março de 2018 contempla textos sobre essa temática a partir do Fórum "Por que apenas existem raças de discurso: desafios para a democracia" :

https://www.ebp.org.br/correio_express/extra001/index.html


2) Revista Correio APPOA (Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre) cuja edição  de setembro de 2020 aborda o tema "Racismo e questões raciais"


BOA LEITURA!!!

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Texto: "Mulher: sintoma do homem?"




Mulher: sintoma do homem?*

Por Flavia Bonfim 

*Texto publicado na Correio Express - Revista online da Escola Brasileira de Psicanálise, São Paulo, número 6, out de 2018. Link: https://www.ebp.org.br/correio_express/006/DC_FlaviaBonfim.html

O aforismo lacaniano “A mulher é o sintoma do homem”, que aqui me sirvo para intitular esse trabalho nos moldes de uma pergunta, demarca o recorte que elegi a partir da pesquisa lançada através do Cartel sobre o livro de Miller, “O parceiro-sintoma”[1]. De modo mais preciso: Como podemos fazer uma leitura dessa formulação de Lacan?
Em seu texto “Joyce, o Sintoma”, Lacan propõe que o sintoma é um evento corporal, e elucida: “Uma mulher, por exemplo, é o sintoma de um outro corpo.” (2003 [1975], p. 565), para em seguida mencionar que é com o homem que ela se sintomatiza. Assim, D. Laurent (2006) nos esclarece que a formulação da mulher como sintoma é para ser lida a partir dos avanços do último ensino lacaniano. Russo & Vallejo (2011) apontam que a mulher como sintoma supõe uma nova definição de sintoma que implica na junção entre sintoma e fantasia. Ao final do ensino de Lacan, o sinthoma do qual apreendemos de Joyce não apresenta estatuto de disfunção, mas pelo contrário, se coloca como uma função, como uma maneira de gozar do inconsciente.
A partir dessa pequena introdução, podemos seguir com o percurso proposto por Miller para discutir esse tema. Ele apresenta o sintagma parceiro-sintoma, mais precisamente essa fórmula (X-sitoma), como uma fórmula milagrosa na medida em que desperta conceitos fundamentais da psicanálise. O que vemos, então. ser despertado e redimensionado nesta discussão em torno da mulher como sintoma do homem é o conceito de sujeito e Outro.
No primeiro ensino de Lacan, o sujeito corresponde a um elemento mortificado pela ação do significante. Seu esforço em destacar e formalizar a dimensão simbólica, esvaziada pelos pós-freudianos, teve como consequências não deixar em evidência elementos que evocavam o imaginário, o pulsional e o real. É somente no último ensino de Lacan que a dimensão do corpo, por exemplo, ganha maior relevância, bem como verificamos uma nova proposição conceitual através da substituição do termo sujeito por falasser – que corresponde a noção de sujeito mais o corpo, o sujeito mais a substância gozante.
No que se refere ao Outro, do mesmo modo assistimos uma reformulação na medida em que se por um lado ele comporta o lugar do significante, ele também deve ser representado por um corpo. Inicialmente, no ensino lacaniano, temos um Outro como essencialmente um lugar simbólico, em seu caráter maquinal. Ao passo que ao final do seu ensino, já não é possível identificar o Outro como unicamente um lugar simbólico, visto que também admite traços do vivo e do carnal. O Outro não é um corpo mortificado, é um corpo vivo. Posto isto, Miller nos lembra uma frase que Lacan por vezes se utilizava para falar do Outro: “é necessário que o Outro seja representado por um corpo.” (ibid., p. 406)
Assim, o Outro passa a ser também representado por um corpo sexuado, no qual se estabelece entre o sujeito e o Outro uma parceria. Nesse sentido, se coloca a questão da relação sexual – perspectiva, esta, que estava apagada na relação entre o sujeito e o Outro. No nível da fala, há uma relação entre o sujeito e o Outro possibilitada pela dimensão significante. O Outro tem um código e o sujeito está numa relação com ele. Ao passo que no nível sexual, não há relação. Ou dizendo de outro modo, a relação passa pelo gozo do corpo, passa pelo sintoma. (MILLER, 2011)
Assim, no seu livro “O osso de uma análise”, Miller é categórico ao propor a definição de parceiro-sintoma nesses termos: “a relação do parceiro supõe que o Outro torna-se sintoma do falasser, isto é, torna-se meio de gozo.” (2015, p. 89) Miller (2011) delimita que o sintoma é um meio de gozo e o Outro ao qual o sujeito está vinculado é sintoma na medida que é meio de gozo do seu próprio corpo. O sintoma, continua Miller, é um modo de gozar do inconsciente, da articulação significante, e por outro lado, é um modo de gozar do corpo do Outro. Ele ainda esclarece que por “corpo do Outro” devemos entender ao mesmo tempo o corpo próprio, com sua dimensão de alteridade, mas também o corpo do outro como meio de gozo do corpo próprio. A partir disso, ele introduz a pergunta: “De que maneira o parlêtre se serve do Outro, como representado por seu corpo, para gozar? E responde: “O gozo se produz sempre no corpo de Um, mas através do corpo do Outro. (MILLER, 2011, p. 411)
Pensando especificamente o caso do homem, seu modo de gozar implica que o parceiro responda a um modelo, podendo chegar a exigência de um detalhe. Seu molde de parceria com o Outro está determinado pelo objeto pequeno a. Miller (ibid.) destaca que o a é uma unidade de gozo discreta, no sentido que está separado, destacado. É, portanto, uma forma fetichista se operar com a relação sexuada. O objeto fetiche toma a forma de um elemento que tem um caráter de unidade, de permanência – traços uniformes. Mais ainda, o objeto fetiche é um objeto que não fala, inerte, assegurado por um exigência de gozo do lado do homem que admite a possibilidade da palavra ficar fora do circuito. Há, portanto, uma erótica do silêncio. Isso, porém, se contrapõe ao modo erotomaníaco de amar da mulher, no qual é necessário que o parceiro fale. (Ibid., ibid.)
Discutindo esse modo fetichista do homem, Caldas (2008) comenta que para o homem se aproximar de uma mulher é preciso destituí-la do falo, afastando-a da figura do Outro primordial não barrado, ao passo que para desejá-la há de identificar nela algum atrativo fálico. Se encontramos nisto uma característica fetichista no amor, é porque identificamos o privilégio da função do véu e de recursos imaginários utilizados no meio feminino para recobrir a falta-a-ter por meio de uma aparência baseada no brilho fálico. (Ibid.) Paradoxalmente, esta miragem está ali para assinalar o que não se tem, para indicar a castração do objeto. Portanto, Russo & Vallejo (2011) salientam que  a ameaça de perder o falo configura uma das facetas da posição masculina e frente a isso, eis uma solução: encontrar na mulher um atributo fálico – o que inviabiliza de apreender corpo da mulher como um todo.
Diante disso, podemos começar a esboçar uma resposta para questão apresentada na introdução deste trabalho. A mulher funciona como sintoma por ter consonância com a forma pela qual o homem goza no seu inconsciente. Posto isso, a noção de mulher-sintoma aponta para a dimensão real do sintoma, como algo da ordem do funcionamento, necessário ao circuito pulsional. O sintoma, nesse sentido, é um aparato que articula gozo e desejo de modo que a mulher teria para o homem esse valor – aquela que ao ocupar o lugar de causa do seu desejo lhe permite a articulação entre seu gozo e seu desejo. Assim, a mulher-sintoma não é aquele que poderíamos identificar com a capaz de fazer adoecer um homem, mas a mulher como sintoma de um homem tem relação com a constituição desse sujeito, com aquilo que o enoda e lhe garante uma consistência, permitindo estruturar sua relação com o gozo.  (RUSSO & VALLEJO, 2011) É, portanto, uma junção entre sintoma e fantasia.


Referências:

CALDAS, Heloisa. Saber fazer com a não-relação. In: ALBERTI, Sonia (org.) A sexualidade na aurora do século XXI. Rio de Janeiro: Cia. de Freud, 2008.
LACAN, Jacques. Joyce, o sintoma. In: Outros Escritos (1975). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

LAURENT, Dominique. O sujeito e seus parceiros libidinais: do fantasma ao sintoma. In: Asephalus – Revista Eletrônica do Núcleo Sephora. – Rio de Janeiro, n. 2,  maio-out 2006,  ano 1. Disponível em: http://www.isepol.com/asephallus/numero_02/traducao.htm. Acesso em: 10/07/2018.

MILLER, Jacques-Alain. El partinaire-sintoma. Buenos Aires: Paidós, 2011.

______. O osso de uma análise + o inconsciente e o corpo falante. Rio de Janeiro: Zahar Ed, 2015.

RUSSO, Laura & VALLEJO, Laura. El amor y lo femenino. Buenos Aires: Tres Haches, 2011.




[1] Cartel em torno tema “Parceiro-Sintoma”. Integrantes: Ana Lucia Garcia (mais-um) e Lucia Mariano, Simone Ravizinni, Flavia Bonfim e Maria Elizabeth da Costa Araújo (cartelizantes)

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Curso: PSICANÁLISE COM CRIANÇAS (SINGULAR - Centro de Psicologia e Psicanálise)


Curso:  
PSICANÁLISE COM CRIANÇAS
  
   DATA: 06/10/2018 (sábado)
       Horário: 8:30 as 17:00 h 
     Local: Rua Mem de Sá, 34
         Icaraí – Niterói/ RJ

 
Investimento:
Até dia 10/09 – 100,00 
Após dia 10/09 – 120,00




Inscrições e Informações:
Telefones: (21) 98212-6662 / 98084-8176 / 2613-3947
E-mail: contato@singularcpp.com ou flaviabonfimpsi@yahoo.com.br
Docente: Flavia Bonfim 
Psicóloga. Psicanalista. Doutoranda em Psicologia (UFF). Mestre em Pesquisa e Clínica em Psicanálise (UERJ). Autora de artigos publicados em revistas cientificas de psicologia e psicanálise. 


CONTEÚDO  PROGRAMÁTICO:
vFreud e o caso Hans
vIntrodução à história da psicanálise com crianças (Ana Freud, Melanie Klein e Winnicott)
vA contribuição lacaniana para clínica com crianças
vComplexo de Édipo e de castração em Freud
v Os três tempos do Édipo em Lacan
vConstituição subjetiva: Alienação e Separação
vA clínica da origem
vO sintoma na criança
v A demanda dos pais e a demanda da criança
vEntrevistas iniciais e o trabalho de escuta aos pais
vO atendimento com crianças (o brincar e o desenho)
vFinal de análise com crianças

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Da queixa ao sintoma analítico: condição para o inicio de uma análise.


DA QUEIXA AO SINTOMA ANALÍTICO: 
CONDIÇÃO PARA O INICIO DE UMA ANÁLISE. 

Por Flavia Bonfim 

Quando se começa uma análise?  
Encontrar um analista a quem possa endereçar suas questões é um passo ou melhor um grande passo; as vezes, extremamente dificil para algumas pessoas. Por outro lado, não é o encontro com um psicanalista que garante que uma análise possa se dar. É preciso algo a mais. Esse algo a mais é encontrado do lado do paciente. Do lado do paciente encontramos a queixa, a demanda e a construção do sintoma analítico. 
Falemos um pouco mais sobre isso que na prática psicanálitica se encontra do lado do paciente:
Miller (1987), em seu texto “A psicanálise e a psiquiatria”, afirma que a demanda feita ao psicanalista deve partir de uma iniciativa própria do paciente (com exceção da análise de crianças, que são levados pelos pais). Este avalia seu sofrimento, interpretando “para si mesmo seu próprio sintoma a partir do que sabe e também não sabe, a partir do desconforto de tipo especial que lhe causa seu sintoma.” (MILLER, 1987, p. 113).
Ainda de acordo com Miller (1987) , na clínica psicanalítica, o sintoma, por sua vez, só existe na medida em que o paciente fala dele. Nela, não é o analista quem observa o sintoma, descreve e o classifica, dando-lhe um nome, mas é somente o próprio sujeito que o nomeia. É o próprio sujeito que pode dizer de sua questão, de seu sofrimento. Isto implica em uma clínica fundamentalmente feita pelos pacientes. Esse é um traço marcante da psicanálise, constituída desde seus primórdios com o discurso de seus pacientes. Nesse sentido, a psicanálise não se constrói como um campo de saber exterior à prática, mas se fundamente a partir dela.
A demanda de análise, todavia, não deve ser aceita em seu estado bruto, mas deve ser questionada pelo psicanalista. O sintoma deverá ser interrogado afim de saber a que ele está respondendo, que gozo vem delimitar. Nesse sentido, a psicanálise procura abordar a verdade do sujeito que se manifesta através de seu sintoma. O sujeito pode procurar um analista para se queixar de seu sintoma e até dizer que deles quer se livrar, mas isso não basta. Quinet (2000), em seu livro As 4+1 condições de análise, afirma que “É preciso que a queixa se transforme numa demanda endereçada àquele analista e que o sintoma passe do estatuto de resposta ao estatuto de questão para o sujeito, para que este seja instigado a decifrá-lo” (p. 16) Assim, cabe ao analista direcionar o sintoma para que ele se transforme em questão para o sujeito: “che vuoi?”, que queres?, introduzindo o desejo na dimensão sintomal.
O sintoma do qual o paciente se queixa deve, portanto, ser transformado em sintoma analítico, em enigma. Quando o sintoma é transformado em enigma, identificamos neste momento a “histerização do sujeito”, já que o sintoma passa a representar a divisão do sujeito. A histerização implica que o sujeito se dirija ao psicanalista com uma pergunta a respeito de seu sintoma: “O que isso quer dizer?” 
Dizendo de outro modo, é somente quando se opera uma passagem da queixa à produção de um sintoma analítico, da queixa a um enigma a ser decifrado por parte do paciente, que o inicio de uma análise pode realmente começar a se colocar. Posto isto, já não se trata mais de um pedido de cura, de solução para as dificuldades da vida. Algo se subverte no próprio sujeito e este passa a se interrogar: Por que repito essas mesmas situações? Por que me sinto tão desvalorizado e qual a função disto? Por que não consigo alcançar o que julgo querer?... Perguntas como estas que se orientam por um desejo de saber - passo inicial que permitirá ao paciente durante o processo de análise construir soluções singulares para lidar com seu mal estar de modo que ao seu final um saber-fazer com o seu sinthoma terá se produzido. 



REFERÊNCIAS:


MILLER, Jacques-Alain. A psicanálise e a psiquiatria. In: Falo – Revista Brasileira do Campo Freudiano, n° 1, Rio de Janeiro: Editora Fator, 1987. 113-124 p.

QUINET, Antônio. As 4 + 1 condições da análise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.






Artigo: O que nos ensina o Fort-Da sobre o brincar em análise?


O QUE NOS ENSINA O FORT-DA
SOBRE O BRINCAR EM ANÁLISE? *

Por Flavia Bonfim 


*Artigo publicado na Revista Marraio, número 32-33, Rio de Janeiro, 2017

RESUMO: Este artigo visa apresentar o jogo Fort-Da presente no texto de Freud Além do princípio de Prazer e ampliar sua discussão a partir da leitura de Lacan sobre a compulsão à repetição. Tal consideração lacaniana nos leva a tomar o brincar em análise como linguagem e discurso determinado pela insistência da cadeia significante, mas também como ato da ordem do encontro com o real, na medida em que através da brincadeira a criança expressa o traumático, seu mal-estar e sofrimento. Nesse sentido, podemos tomar o brincar como um saber-fazer diante dos impasses que se colocam em torno sua existência .

Palavras-chaves: Fort-Da. Brincar. Repetição. Real.


Nada mais exemplar ao falar do brincar na criança do que nos reportarmos ao Jogo do Fort-Da, apresentado no texto freudiano Além do princípio de Prazer (1920). Contudo, esta não é a única contribuição de Freud a respeito da função da brincadeira, tendo em vista que no artigo “Escritos criativos e devaneios” de 1907, ele também faz uma consideração sobre os motivos que levam uma criança a brincar. É, portanto, partindo desses apontamentos e retomando a leitura lacaniana sobre o Fort-Da a partir da compulsão a repetição, que procuro delimitar a função do brincar em análise.

As observações de Freud sobre o brincar

            No texto “Escritos criativos e devaneios”, Freud (1907) nos lembra que a ocupação favorita e mais intensa da criança é o brincar, identificando que nessa atividade ela se comporta como um escritor criativo, na medida em que cria seu mundo próprio reajustando os elementos do seu exterior de uma forma que seja mais prazerosa. Assim, como destacam Oliveira & Fux (2014),  Freud coloca o brincar ao lado da criação artística.
A contrário do que se poderia supor, diz Freud (1907), a criança leva muito a sério sua brincadeira e nela mobiliza muita emoção, sabendo a distinguir da realidade. Sendo assim, o brincar não se opõe ao que é sério, mas ao que é real. Real, aqui, não na conceituação lacaniana desse termo, mas no sentido de realidade.
            O brincar tem tanta importância na constituição psíquica que a medida que a criança cresce e interrompe suas brincadeiras, um substituto advém em seu lugar:  a fantasia. Tal consideração, sustenta Freud (ibid.), fundamenta-se ainda no fato da dificuldade humana em renunciar a um prazer experimentado, tendo em vista que procurará de todas as formas um substituto, podendo encontrar prazer não somente no fantasiar, mas também no humor, na escrita, enfim. Diferentemente de um adulto que se envergonha e esconde muitas vezes suas fantasias por serem infantis e proibidas, a criança não oculta sua brincadeira e nem procura esconder seu conteúdo. Ainda sobre os jogos infantis, Freud escreve:
O brincar da criança é determinado por desejos: de fato, por um único desejo – que auxilia o seu desenvolvimento - , o desejo de ser grande e adulto. A criança está sempre brincando ‘de adulto’, imitando em seus jogos aquilo que conhece da vida dos mais velhos. Ela não tem motivos para ocultar seu desejo. (1907: 137)

Oliveira & Fux (2014) assinalam que a primeira definição de Freud sobre o brincar se sustenta no principio do prazer, conservado na fantasia, que se manifesta com mais liberdade quando não articulado ao princípio de realidade, no qual o desejo de ser grande mostra-se como fio condutor.
Contudo, quando levamos em consideração a dimensão do brincar com o desejo de ser grande e o fato de na brincadeira a criança imitar os adultos a sua volta, podemos verificar como elas reproduzem em análise (algumas de formas mais diretas outras nem tanto) através de falas, condutas e com histórias, situações do seu cotidiano e expressam assim as problemáticas de sua estrutura familiar e os impasses no qual se vê incluída. Isso, portanto, coloca em cheque a explicação do brincar unicamente pela via do princípio do prazer e não é a toa que Freud pensou essa atividade infantil também a partir da compulsão a repetição e sua articulação com o traumático.
É, nesse sentido, que em suas observações sobre o brincar, podemos recolher de sua obra o famoso jogo do Fort-Da, no qual se pôde verificar, como observam Oliveira & Fux (ibid.), que a fantasia não é tão evidente para associar esse jogo à dimensão da arte, estando mais ao lado dos “neuróticos de guerra”, do trauma, por assim dizer. Vale lembrar que no texto “Além do principio do prazer”, de 1920, Freud apresenta argumentos que promovem sua reformulação sobre o funcionamento psíquico não mais regulado exclusivamente pelo principio do prazer, tomando os sonhos traumáticos dos neuróticos de guerra, a compulsão a repetição e o brincar como exemplos para sustentar sua nova teorização.
   Freud (1920) extraiu este jogo a partir da observação do brincar de seu neto, constatando que o menino realizava através da brincadeira a repetição de uma experiência vivida como desprazer, que era a ausência de sua mãe. O neto de Freud, então, jogava o carretel e emitia o som de “ôoo..”, que Freud identificou como a palavra alemã Fort (embora, longe, ausente); e quando o puxava de volta, alegremente dizia “aaa..”, identificado como Da (aí, aqui). Na perspectiva freudiana, esse jogo diz respeito a uma brincadeira de desaparecimento e retorno, que faz referência a ausência e presença materna.
Para Freud (ibid.), a ausência da mãe colocava-se para a criança como uma experiência passiva, na qual o menino estava sendo submetido, contudo, com a repetição da experiência no jogo ela assumiu um caráter mais ativo. Nesse sentido, o jogo do Fort-Da reproduziu o que foi tomado como impactante para criança, que no caso do neto de Freud foi ter que suportar a ausência materna sem se queixar. Nas palavras de Freud: “É claro que em suas brincadeiras as crianças repetem tudo o que lhes causou uma grande impressão na vida real, e assim procedendo, ab-reagem a intensidade da impressão, tornando-se por assim dizer, senhoras da situação.” (1920: 27) O fato de ainda assim ser possível verificar uma cota de prazer nos jogos infantis permitiu a Freud concluir que a brincadeira pode estabelecer uma convergência entre o principio do prazer e a compulsão à repetição.

A leitura lacaniana sobre o Fort-Da a partir da compulsão a repetição

Oliveira & Fux (2014) ponderam que na brincadeira do Fort-Da o que se evidencia é que mais do que a busca o prazer – primeira proposição freudiana sobre o brincar –  visto que, na verdade, o aparelho psíquico visa nesse jogo a repetição. Repete-se tendo em vista a dificuldade do neto de Freud em lidar com o real –  o inominável, sem representação, do que não cessa de não se inscrever –  da perda de objeto que resiste a ser simbolizado, tal como a experiência do neurótico de guerra em poder representar o real da própria morte.
A compulsão à repetição é abordada por Lacan no Seminário 11 pela via do Autômaton (via simbólica) e tiquê (via real) e é também no capítulo dedicado a esta discussão que ele retoma o jogo do Fort-Da. Autômaton e Tiquê são termos que Lacan recolhe de Aristóteles para discutir a questão da repetição. Tiquê pode ser traduzido impropriamente, segundo Lacan, como “sorte, fortuna” e autômaton, como “acaso, causalidade”. Ambos são tomados por Aristóteles como “causas acidentais das coisas”, pois para ele existem coisas que acontecem sempre, coisas que acontecem na maioria das vezes e coisas que acontecem excepcionalmente –  sendo estas o estatuto do tiquê e autômaton.
O autômaton é o acaso que diz respeito a algo do retorno, daquilo que se move por si mesmo, no qual não se pode determinar por não haver leis de causa e efeito; não há como predizer. Tem relação com os seres da natureza, com o inanimado, como por exemplo, um cavalo que foge do estábulo e retorna antes que a tempestade chegue. Já o tiquê é tomado como um acaso do registro da sorte, de um encontro feliz ou não, mas que depende da ação humana. Um exemplo disso seria ganhar na loteria. Ser o ganhador é questão de sorte, mas é algo que só acontece se a pessoa jogar. É, portanto, a dimensão do retorno no autômaton, e do encontro no tiquê, que Lacan procura extrair para discutir o tema da repetição, porém concedendo outra dimensão. 
Assim, o ensino lacaniano nos orienta e reforça a tomar o tema repetição não por intermédio da transferência, do acting out – como é possível extrair do texto freudiano “Recordar, repetir e elaborar”, tendo sido essa dimensão privilegiada entre os pós-freudianos –, mas levando em consideração os avanços de Freud a partir de suas formulações sobre o “além do principio do prazer”.  Sobre isso, ele nos diz:
Assim, não há como confundir a repetição nem com o retorno dos signos, nem com a reprodução, ou a modulação pela conduta de uma espécie de rememoração agida. A repetição é algo que, em sua verdadeira natureza, está sempre velado em análise, por causa da identificação da repetição com a transferência na conceitualização dos analistas. Ora, é mesmo esse o ponto a que deve dar distinção. [...] Esta ambiguidade da realidade em causa na transferência, só podemos chegar a desembrulhá-la a partir da função do real na repetição.  (1998 [1964]: 56)

E qual é a função do real na repetição? A função é justamente reiniciar o processo da repetição. O tema da compulsão à repetição e as construções teóricas que a permeiam acompanham o movimento da clínica no sentido que vão do simbólico em direção ao real.  Uma dimensão da noção de repetição traz relação com o simbólico, com o retorno dos signos, de algo que se move por si mesmo, que gira em torno de si mesmo. É, nesse sentido, que Lacan situa o autômaton enquanto a insistência automática da cadeia significante, uma seriação automática, que visa uma satisfação pulsional e, portanto, responde ao princípio do prazer. Todavia, nesse retorno, há sempre um resto e é por isso que ele não cessa. É justamente o resto que causa a repetição, pois o que faz a cadeia significante é girar em torno desse núcleo real, sem representação, inominável. Assim, na repetição há sempre um resto que constitui a causa, sendo por isso que Lacan toma o tiquê como o encontro faltoso que sempre reinicia o processo e instaura novamente a repetição. A partir dessa perspectiva é possível verificar a articulação indissociável entre simbólico e real presente no ser falante, entre inconsciente e pulsão.  Diante disso, a compulsão a repetição é uma forma de nomear o real lacaniano como aquilo que sempre retorna no mesmo lugar.
            De maneira categórica, Lacan traduz a tiquê como “encontro do real” (ibid., ibid, grifo do autor). A origem da função da tiquê – em suas palavras do real como encontro faltoso – pode se extraído primeiramente da noção de trauma em psicanálise. O trauma enquanto algo da ordem do excesso, do inassimilável, do encontro com o real na medida em que o sujeito não consegue representá-lo e se vê ultrapassado pelo evento em sua dimensão de pura ruptura.
            Nesse sentido, podemos com Freud e Lacan inferir que se o funcionamento psíquico fosse regido unicamente pelo principio do prazer, a insistência desprazerosa do trauma não teria lugar.  O trauma só é lembrado porque há uma falha na insistência da repetição significante, no qual localizamos a ordem do real. Nesse sentido, Oliveira & Fux (2014) argumentam que o encontro com o real do trauma extrapola o principio do prazer e por isso insiste em não se inscrever, sendo essa falha na inscrição o ponto mais importante do que Freud abordou sobre a repetição em 1920,  ainda que ele não tenha retirado toda a magnitude a respeito da brincadeira infantil.  “Se o trauma é o inassimilável, ele não pode ser dominado, ele sempre deixa um resto, é e esse resto que motiva a repetição. A repetição, por sua vez, nunca dará conta da prometida vinculação, o que não significa que nada pode ser transcrito.  (ibid.: 263)
            Posto essas considerações, Lacan (1998 [1964]) segue em sua discussão sobre a repetição pelo mesmo víeis freudiano: a partir do sonho traumático e do brincar. Restringindo-nos aqui a questão do brincar, Lacan é preciso ao situar que a formulação de Freud sobre o papel da criança como agente, como ativo, na brincadeira de desparecimento da mãe é um fenômeno secundário. Lembra-nos ainda uma consideração de Wallon (filósofo, médico e psicólogo francês que ficou conhecido por seu trabalho sobre a Psicologia do desenvolvimento infantil) a respeito da relação da criança com o afastamento da mãe. Segundo Wallon, o que a criança vigia não é a porta por onde sua mãe saiu, esperando seu retorno; ela vigia justamente o ponto em que ela o deixou, o vazio que ali se instaurou. (ibid.,ibid.)
Assim, retomando o Fort-Da, Lacan destaca essa função do vazio – se assim, posso dizer – para fazer relação com a sua formulação a respeito do objeto a. Ele nos diz que o carretel está ligado ao neto de Freud por um fio que ele segura e a partir disso ele expressa o que dele se destaca, tal como uma “automutilação”. E complementa:
“Pois o jogo do carretel é a resposta do sujeito àquilo que a ausência da mãe veio criar na fronteira de seu domínio – a borda do berço – isto é, um fosso, em torno do qual ele nada mais tenha senão o jogo do salto. Esse carretel não é a mãe reduzida a uma bolinha [...] é alguma coisinha do sujeito que se destaca embora ainda sendo bem dele, que ele ainda segura. (LACAN, 1998 [1964]: 63)

Sendo assim, Lacan (ibid.) situa que a repetição da brincadeira de jogar e puxar de volta o carretel não deve ser pensada como um modo pelo qual a criança expressa seu desejo de retorno da mãe, visto que um grito, um apelo, atenderia a essa função. O que se repete é a saída da mãe como “causa de uma Spaltung no sujeito” (LACAN, 1998 [1964]: 63). Dizendo de outro modo, o que se repete é a divisão, a separação do sujeito em relação ao Outro. Esse ponto, então, nos remete ao processo de constituição subjetiva. 
 Lacan (1998 [1964]) nos indica que o sujeito surge no campo do Outro, imerso na linguagem e como efeito de duas operações: alienação e separação. A alienação vem demarcar que nenhum falante existe sem a relação com o Outro e que ele inicialmente se situa como objeto, marcando sua existência e seu desejo pela incidência do desejo do Outro sobre ele. Contudo, a separação salienta a tentativa do falante de se “separar”, sair do lugar de objeto e assim, realmente assumir a condição de sujeito desejante, portanto, faltoso. Diante da operação que se expressa na separação, o que temos é uma divisão (do sujeito e do Outro), que tem como resto o objeto a. Sobre o objeto a, Lacan é preciso: “Na medida em que ele é a sobra, por assim dizer, da operação subjetiva, reconhecemos estruturalmente neste resto, por analogia de cálculo, o objeto perdido.” (2005 [1962-63]:179)
Lacan nos apresenta o objeto a enquanto um dejeto, da ordem da queda, que resiste a qualquer “significantização” – portanto, seu caráter real –,  porém com a função constitutiva do sujeito desejante. Precisamente, Lacan no  Seminário 10 (2005 [1962-63]), situa o objeto a enquanto uma parte de nós que é arrancada, ficando aprisionada na máquina e tornando-se irrecuperável; objeto perdido, objeto cedível, nos distintos níveis de corte corporal, que constitui o suporte de toda e qualquer função de causa. Daí podermos situar o objeto a como objeto causa de desejo, que não diz respeito ao objeto visado (que pode ser representado), mas se situa atrás do desejo. Nesse sentido, Lacan nos ensina a ligar o desejo à função de corte e pô-lo numa certa relação de resto, sendo isso que o sustenta e o move.
Para Lacan, a noção de castração está relacionada com o fato de que, em determinado momento, o sujeito é forçado a renunciar a algum gozo. Assim, Lacan pôde situar na segunda virada de seu ensino que na castração o que está em jogo é a separação – uma perda sob a forma de um órgão libido, uma perda de gozo. E ele esclarece que “maneira mais segura de abordar [...] algo perdido é concebê-lo como um pedaço de corpo.” (LACAN, 2005 [1962-63], p. 149. ) Assim, é preciso entregar, como garantia da cadeia significante, um pedaço de corpo.
Essa é, portanto, a função de corte, de objeto cedível, automutilação, que Lacan procurou destacar na experiência do Fort-Da. Sendo assim, podemos mais uma vez assinalar que o jogo do carretel é uma repetição da reposta do sujeito à separação do Outro, que ele experimenta como “alguma coisinha que se destaca” dele próprio e que remete a uma perda de gozo estruturante. Diante disso, nesse jogo, a criança está tentando representar a falta e o primordial nessa brincadeira é o processo de divisão do sujeito aí implicado, sua castração.
Escrever a separação do Outro é impossível tendo em vista seu caráter de encontro com real, contudo, o jogo do carretel teve sua função em permitir que algo pudesse ser transcrito dessa experiência. A esse repeito, Vidal (s.d.) nos lembra sobre o caráter de prematuridade do humano que o coloca numa posição de dependência total frente ao Outro, ao mesmo tempo, que vivência um profundo desamparo. Nesse sentido, quando o neto de Freud brinca com o carretel, algo pode também ser operado nele, passando da posição de objeto dependente a consentir com a perda de objeto, imaginá-lo como faltante. Um objeto, contudo, condensador de gozo e causa de desejo.

Para concluir: A função do brincar na clínica com crianças

Vidal (s.d) pondera que desde Freud o brincar é entendido como um discurso particular no qual a criança sustenta as formações do seu inconsciente – um discurso a decifrar. A brincadeira é, portanto, uma forma inerente de expressão infantil e um instrumento da criança no seu processo de constituição subjetiva, seu modo de inscrição na ordem simbólica e na cultura.  É, nesse sentido, que é possível sustentar que sujeito, efeito da articulação inconsciente, pode se manifestar através dos seus desenhos, sonhos, jogos e brincadeiras. Sendo assim, não é preciso que se demande à criança que ela brinque em análise, pois é uma estrutura que se impõe na clínica como sendo específica a ela.
Não obstante, o jogo do Fort-Da nos ensina que a brincadeira não se relaciona apenas com o principio do prazer, com a fantasia, mas pode servir também como elaboração psíquica para lidar com o que se coloca como impactante para a criança. Nesse caso, a repetição nos jogos infantis emerge como tentativa de assimilação de experiências não prazerorosas e já pode ser um contorno que a criança constrói em torno do que ela viveu. Cohen & Miranda (2012) consideram ainda que o brincar atua como uma das formas de atenuar o sofrimento psíquico na medida em que a brincadeira possibilita diminuir a tensão gerada por situações difíceis que a criança experimenta.
Pode-se, assim dizer que o brincar será, portanto, o recurso privilegiado que a criança terá em análise para expressar e tentar abordar: o traumático; seu mal estar e sofrimento em torno do que vivência; a problemática de sua estrutura familiar; e também suas fantasias e sua ficção a respeito do lugar que ocupa no desejo do Outro – Che vuoi? Que queres? Um recurso, portanto, que fala de sua verdade e do qual, como observa Freud, ela não tentará esconder – ao contrário dos neuróticos que escondem suas fantasias – , cabendo o analista escutá-la.                                                                         
Se o brincar é o recurso privilegiado criança para expressar na clínica seu mal estar, cabe nos perguntar qual será a via utilizada pelo analista para escutar seu sofrimento? É fundamental situarmos que só há uma psicanálise e que Freud só pensou a experiência analítica pela via da palavra. Como bem situa Almeida (2015), não há distinção entre adulto e criança nesse sentido, pois o sujeito de que se trata é um só – o sujeito do inconsciente. E o que melhor articula a natureza dos fenômenos inconscientes? Lacan nos responde, a saber: a noção de significante. É nesse sentido, que Cohen & Miranda sustentam o brincar como um ato surgido como efeito da articulação de significantes do sujeito, no qual a criança:
cria um mundo de fantasia ao qual se submete, mas que também mantêm uma nítida separação entre ela e os fatos da vida. Se os conflitos, os traumas existem, a criança poderá, frente à insatisfação e ao mal estar, usar a fantasia como um modo saber-fazer com o real. (COHEN & MIRANDA,  2012)
Portanto, o jogo e a brincadeira tem papel na análise infantil não enquanto uma técnica, mas como um saber-fazer inerente a toda direção de tratamento na clínica com crianças. Assim, devemos tomar a repetição do brincar como um fazer e abordá-lo como linguagem e discurso determinado pela insistência da cadeia significante, mas também como ato da ordem do encontro com o real – tal como é possível extrair do ensino lacaniano em torno do tema da compulsão à repetição. (VIDAL, s.d.) Nesse sentido, Cohen & Miranda (1912) consideram que o brincar tem sua função na clínica enquanto uma possibilidade de tratamento do real.
Se o real é o que não cessa de não se inscrever e isso que motiva o caminho da repetição nos jogos infantis, o lugar da brincadeira no encontro com o desejo do analista será possibilitar à criança que algo possa ser transcrito dessa experiência com o real, bem como favorecer a elaboração e um saber-fazer com as questões que se colocam em torno sua existência.

REFERÊNCIAS: 

ALMEIDA, Consuelo. A clínica com crianças: alcances e impasses. In: Marraio, Rio de Janeiro, vol. 29, Julho-2015.

COHEN, Ruth & MIRANDA, Cassio. O brincar como modo de tratamento ao real da doença. In: Estudos e Pesquisa em Psicologia. Rio de Janeiro, vol. 13, n 1, 2012. Disponível: http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revispsi/article/view/7932. Acesso em 04/04/2016.

FREUD, Sigmund. Além do princípio de Prazer (1920) In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira. Rio de janeiro: Imago Ed., 1996. vol. XVIII.

______. Escritos criativos e devaneios (1907). In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira. Rio de janeiro: Imago Ed., 1996. vol. IX

LACAN, Jacques. Seminário 10 – A angústia (1962-63). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

 ______ Seminário 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

OLIVEIRA, Humberto & FUX, Jacques. Considerações psicanalíticas sobre o jogo de esconder: do puti ao esconde-esconde. In: Agora: estudos da teoria psicanalítica. Rio de Janeiro: Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica IP/UFRJ. Vol. XVII, n° 2, Julho/Dezembro 2014.

VIDAL, Maria Cristina. Questões sobre o brincar. In: Letra Freudiana. Rio de Janeiro, v. 10, n. 9 (s.d.) Disponível: http://www.escolaletrafreudiana.com.br/wp-content/uploads/publicacoes/57/letra9-5231.pdf. Acesso em: 04/04/2016.