Psicóloga / Psicanalista Flavia Bonfim - Atendimento - Cursos - Eventos - Textos
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sábado, 7 de outubro de 2017

JORNADAS CLÍNICAS DA EBP-Rio/ICP-RJ - LOUCURAS E AMORES NA PSICANÁLISE


Sobre as XXV Jornadas

Loucuras e amores na psicanálise intitula a reflexão clínica que propomos, inspirados no programa de investigação sobre as psicoses no Campo Freudiano. As psicoses, tanto quanto as neuroses, são loucuras do falante. As diferentes estruturas clínicas são respostas delirantes ao real irrepresentável.
“Todo mundo é louco”, afirmou Lacan, se é que no discurso analítico se pode propor algum universal. De fato, uma tal generalização decorre da experiência da psicanálise, que consiste em acolher a loucura de cada um no trabalho sob transferência.
O laço analítico se funda num amor novo que o dispositivo freudiano instalou.
Para essas Jornadas, convidamos os analistas de nossa comunidade a testemunhar, com breves relatos, como se configuram esses laços hoje, como se articulam o singular de um caso e o particular de uma classe e, ainda, como as patologias amorosas convocam o analista em sua prática.
Angela C. Bernardes
Diretora da EBP-Rio
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O tema de nossas próximas Jornadas, Loucuras e amores na psicanálise, toca em um ponto importante da experiência clínica, política e epistêmica da psicanálise, que é a aposta no sintoma como forma de tratamento do gozo para tornar possíveis os laços sociais. Essa aposta tem consequências na forma como o analista acolhe o mal-estar de seus pacientes, como também na forma como ele se situa no jogo político de sua época, acolhendo o que não está conforme às normas pré-estabelecidas, o que segrega, exclui, esmaga as possibilidades inventivas de cada um para lidar com o que se apresenta como imperativos mortíferos.
O gozo impossível de ser eliminado pode servir como ponto de orientação, mas também de enlouquecimento, se ele não puder ser acolhido como força vital na construção do sintoma a partir dos recursos, os mais variados, que se apoiam no que Lacan se referiu como a pluralização dos Nomes-do-Pai.
O analista é aquele que está atento aos pequenos detalhes que indicam a forma como cada um, neurótico ou psicótico, trabalha para lidar com esses imperativos. A forma de lidar com eles se apresenta, às vezes, como um excesso de normalidade, que não permite ser tocada e, outras vezes, como desvarios que assustam. Deixar-se surpreender por essas modalidades diversas de  tratamento do gozo, sem encaixá-las muito rapidamente em um diagnóstico, é o que vai  permitir surpreender o núcleo traumático no encontro de cada um com a linguagem.  E, poder se dispor ao jogo transferencial que se apoia no amor, não sem a contrapartida do ódio, permite estar atento ao que pode advir daí como sintoma.
E o inconsciente? Como situá-lo no sintoma? Como surpreendê-lo nas loucuras e nos amores na psicanálise? Em que medida o inconsciente continua sendo nosso referencial para irmos do gozo ao sintoma de cada um? O trabalho dos associados do ICP sobre o tema inconsciente e sintoma poderá ser lembrado para trazer uma contribuição ao tema destas Jornadas.
Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros
Diretora ICP-RJ
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COORDENAÇÃO
Andréa Reis Santos e Angela Batista

COMISSÕES ORGANIZADORAS DAS XXV JORNADAS
  • Comissão Científica
Ângela Negreiros
Maria Silvia Garcia Fernandez Hanna (coordenação)
Paula Borsoi
Romildo do Rêgo Barros
Ruth Cohen
  • Comissão de Divulgação e Mídia
Deborah Uhr
Francisca Menta
Maria Corrêa
Mariana Pucci
Marina Morena
Marina Sereno
Renata Martinez (coordenação)
Thereza De Felice
  • Comissão de Secretaria de Inscrições
Camila Drubscky
Luiza Sarrat Rangel
Roberta D’Assunção (coordenação)
  • Comissão de Livraria
Anna Carolina Nogueira (correspondente em Buenos Aires)
Clara Reis
Ingrid Valério
Leonardo Miranda (coordenação)
Patricia Paterson (coordenação)
  • Comissão de Tesouraria
Vicente Machado Gaglianone (coordenação)
  • Comissão de Infraestrutura Local
Anna Luiza de Almeida e Silva
Carolina Dutra
Elena Lerner
Michelle Pastorini
Para mais informações acesso o link: 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Jornada da AFR - "A Ética psicanalítica e seus desdobramentos clínicos"

V Jornada da Psicologia da Associação Fluminense de Reabilitação

TEMA: A ÉTICA PSICANALÍTICA E SEUS DESDOBRAMENTOS CLÍNICOS 

DIA: 26/08/1017 (SÁBADO)
HORÁRIO: 8:30 às 17:00 h
LOCAL: AFR

ABERTURA: EDMÉA ROQUE  
Psicanalista Membro da Praxis Lacaniana

EIXOS TEMÁTICOS: 
1) Ética lacaniana
2) Desejo do analista
3) Fenômenos psicossomáticos e manifestações corporais
4) Perda, confronto com a morte e reflexões sobre o suícidio
5) Autismo


Valor: R$ 20,00 (Vinte reais), com certificado. 
Inscrições no NEPP (AFR) - 2109-2626 (Rafael)





domingo, 30 de abril de 2017

Pós-Graduação "Clínica Psicanalítica na atualidade" - (UNIVERSO - NITERÓI)



Previsão de inicio: Agosto de 2017
Horário das Aulas: às terças (19h às 22h) e sábados (9h às 13h)

Disciplinas: 
Conceitos Fundamentais em Psicanálise,
Estruturas Clínicas,
Constituição do Sujeito e Sexualidade,
Psicanálise e Contemporaneidade,
Cultura e Identidade Social,
Direção do Tratamento,
Sintomas Contemporâneos,
O Corpo na Psicanálise,
Seminário Clínico I,
Seminário Clínico II,
Psicanálise e Instituição,
Psicanálsie e hospital,
Psicanálise e Saúde Mental,
Psicanálise e Educação,
Psicanálise com Crianças e Adolescentes,
Autismo,
Metodologia de Pesquisa,
Orientação e Elaboração de TCC.
Carga Horária: 624 horas
Duração: 18 meses (564h + 60h TCC)
Público Alvo: Portadores de Diploma de Graduação em Psicologia.
Documentos Necessários: Cópia dos documentos: RG, CPF, Certidão de Nascimento ou Casamento, Comprovante de Residência, 2 fotos 3×4, Histórico Escolar da Graduação (frente e verso), Diploma da Graduação (frente e verso) ou documento que comprove o término da Graduação com a data da Colação de Grau.
Valor da Mensalidade: R$ 500,00 / R$ 400,00 Ex aluno da Universo

sexta-feira, 31 de março de 2017

CANAL YOUTUBE: "FALANDO NISSO"



Recentemente, encontrei no youtube um canal chamando "Falando nisso" com Christian Durker, que se propoe a falar sobre temas psicanalíticos a partir de questionamentos do público.... Adorei!!!! Recomendo. Uma linguagem fácil e acessível sem deixar de tocar em temas complexos. Vale a pena conferir!




https://www.youtube.com/watch?v=aokkRvErfvM

sábado, 28 de janeiro de 2017

Artigo: “INTOCÁVEIS”: sobre a marca da deficiência e a psicanálise no campo da reabilitação.


“INTOCÁVEIS”:
sobre a marca da deficiência e a psicanálise no campo da reabilitação.*
  
Por Flavia Bonfim 

*Artigo publicado na Revista Latusa - Revista da Escola Brasileria de Psicanálise - Seçao-Rio, n. 19 - agosto de 2014

            “Intocáveis” – um belíssimo filme francês, baseado em fatos reais, que narra a história de como o feliz encontro entre Philippe e Driss, relançou e reposicionou tais sujeitos na vida. Philippe, um milionário – que após um acidente de parapente, fica tetraplégico; e Driss, aquele que inesperadamente veio a se tornar seu cuidador. Sirvo, então, deste filme para pensar a prática em que me encontro, a saber: a psicanálise numa instituição de reabilitação física e intelectual[1], destacando de modo especial dois trechos do longa-metragem que me parecem ser bem oportuno: o primeiro diz respeito ao processo de seleção dos canditados a enfermeiro/cuidador; e o segundo, quando Philippe é questionado por sua escolha. 

 O filme “Intocáveis”

É curioso constatar que, de todos os candidatos, Philippe tenha escolhido Driss – justamente o que não tinha nenhuma experiência para exercer tal função e que muito menos estava interessado em ocupar o cargo. Dos canditados ali ilustrados, todos tinham certificados, cursos de capacitação e/ou diploma que atestavam seu “saber” para exercer o trabalho, todavia, como muita sutilieza, as imagens revelam o modo como a pessoa com deficiência é tomada por eles, ou seja, unicamente como “objeto” a ser cuidado. Com exceção de Driss, nenhum deles dirigiu seu olhar ou sua palavra para Philippe.
Com jeito peculiar e implusivo, Driss causou espanto sobre aqueles que viviam ao redor de Philippe – sendo inclusive este questionado por sua escolha e alertado quanto aos possíveis perigos de que estava correndo tendo em vista o passado de Driss,  sua condição socio econômica e o fato de, como morador da periferia, não teria “compaixão” e “piedade” dele. Philippe, então, responde ser justamente isso que ele quer: alguém que não tenha pena. Driss não negava a limitação do corpo imposta a Philippe e sem rodeios conseguia abordar tal assunto, todavia, mais do que isso, ele conseguiu estabelecer um laço com Philippe  cuja  deficiência não estava em primeiro plano nem o definia como pessoa.
É, nesse sentido, que tomar esse filme  parece ser bastante norteador para pensar as implicações subjetivas da marca de uma deficiência e para interrogar o trabalho destinados a esses pacientes no campo da reabilitação, de modo a apontar para uma especificidade da função no psicanalista nesse contexto instituicional.

“Deficiência” e  processo de reabilitação

É válido considerar que para todo sujeito lidamos com a questão de uma diferença irredutível e estrutural, que é constantemente velada. Todavia, para aquele que possui alguma deficiência, essa diferença é tomada a partir do traço biológico, da marca em seu corpo.[2] Marca, contudo, que não é qualquer, não apenas pela limitação e por toda dificuldade que ela pode acarretar, mas especialmente pelo lugar destinados a tais sujeitos na sociedade. Toda deficiência só é então definida a partir do que é considerado “normal”. A questão é: o que é “normal” para o humano?  Curioso é que o decreto que assegura os direitos desses cidadãos testemunhe essa prerrogativa, ao conceituar a deficiência como  “toda perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado normal para o ser humano.”[3] Postula Jeannot:
Este termo fatídico “deficiência” é praticado pelo aparelho burocrático para estruturar o acompanhamento destas pessoas, mas é importante não esquecer seu efeito segregativo sobre a sociedade, deixando difícil a invenção da identidade pelos sujeitos ditos “deficientes”. Como eles gostariam de ser apresentados, por quais significantes desejariam ser reconhecidos? Um modo completamente diferente seria percebê-los sobre o tipo da diferença e das dificuldades, tomados um por um.[4]

Portanto, o significante “deficiente” é universalizante e, como tal, estar no lugar de um significante mestre. Ao apresentar o discurso do mestre, Lacan[5] propõe que o signficante - S1 -  intervem no S2, na bateria significante, no campo do saber e, a partir desta intervenção,  ele representa o sujeito.  Os discursos são estruturas sem palavras, no qual relações estáveis se realizam por meio da estrutura de linguagem.[6] Para elaborá-los, Lacan serve-se do recurso da letra (lógica algébrica) e é a rotação (permutação cíclica) nos elementos que fornece a configuração de cada discurso. Todo discurso possui uma “verdade” que o move, havendo um “agente” que se direciona a um “outro” a fim de obter uma “produção”.   
Não devemos desconsiderar que o discurso do mestre representa o discurso do poder, da dominação. O que temos é a apropriação do saber colocado a funcionar a serviço do mestre. O sujeito no lugar da verdade encontra-se representado, devendo ser idêntico ao próprio significante, como se representasse a si mesmo. No caso aqui discutido,  o $ é “deficiente”. Essa é a sua verdade e toda a particularidade do desejo apresenta-se velada.
A partir desse significante, cai sobre o sujeito uma sombra de falha e imperfeição em sua vertente negativa, como se isto não estivesse de alguma forma para o humano.  A partir, então, deste significante que vem do Outro, considera Jeannot[7],  o sujeito tem seu ser recoberto e, com isso, toda uma problemática instala-se para conseguir subjetivá-lo, fazendo uso particular e identificando sua própria dificuldade, sem agarrar-se completamente a ele. Não podemos esquecer, como assegura Lacan[8], que a estrutura da linguagem recorta o corpo, podendo não ter nenhuma relação direta com a anatomia. Cabe pensar as repercussões sobre esse corpo na medida em que ele é recoberto pelo significante deficiente.  Será que o sujeito não corre o risco de apresentar mais dificuldades do que ele tem? Não é raro testemunharmos isso na clínica.
É preciso levar em conta que a noção de deficiência vem responder a construções históricas que moldaram nossa organização social, conferindo-lhe um caráter normatizador e sem lugar para a diferença, sobretudo por meio dos padrões estabelecidos pela sociedade higienista. O que não se aplica aos ideiais de limpeza, beleza e força,  encontra-se, portanto, deficiente[9]. Como destaca Arias[10], a “cultura carrega o corpo” e a visão sobre ele “varia de acordo com  a cultura, a classe social, as épocas.” Nesse sentido, ela assinala:
Ao longo da história as práticas sobre o corpo, e as relações com ele estabelecidas o converteram em referentes da teoria política, da epistemologia, da filosofia e de diferentes disciplinas. Cada proposta, cada filosofia, cada episteme tem algo a dizer sobre o corpo. [...] o corpo humano tem sido objeto de pesquisa, durante séculos, como um texto no qual se inscrevem práticas sociais e institucionais: cartografia corporal, atravessada pelo instituído, onde as ideologias escrevem sua história e encontram seu limite. [11]

 Ainda segundo Arias[12], o corpo passou de “objeto de emoção estética” na Grécia Antiga, depois “fonte do pecado” na Idade Média, chegando na atualidade como meio de puro gozo e objeto de consuno. Na contemporaneidade, o corpo tende a ser altamente idealizado em termos de sua eficiência, visto a associação entre saúde e estética. O corpo deve seguir os padrões de beleza estabelecidos, tornando-se, portanto, desejável. Um corpo não deve comportar as marcas do tempo nem apontar para a doença e a morte. O que não se aplica a isso não tem lugar e, neste ponto, mais uma vez confirma-se a exclusão daqueles que possuem alguma limitação corporal. Exclui-se, porque a “deficiência” aponta para o caráter frágil da existência humana, para a perda e a morte, e, sobretudo, para aquilo que o sujeito busca evitar: o encontro com a castração.[13] Freud[14] já dizia que no fundo ninguém crê em sua própria morte e que no inconsciente cada um de nós está convencido de sua própria imortalidade.
Respondendo a essas construções históricas e a produção de subjetividade em torno dela, surge, então, os centros de reabilitação. De acordo com Santos[15],  a prática médica, assistencial e pedagógica desses centros consolida-se pautada em teorias que sistematizam uma normatização dos corpos e um saber construído através da deficiência. Estruturado por meio de um modelo adaptativo, os centros de reabilitação possuem, assim, princípios que buscam o ajustamento às limitações, a compreensão e aceitação da deficiência, a aprendizagem de novos comportamentos e a adaptação à sociedade.
A dialética entre capacidade e incapacidade, bem como a educação dos corpos e seus imperativos,  pairam sobre esses sujeitos e confirmam os discursos sobre eles, expresso, sobretudo no filme, nas falas de um dos canditado a cuidador: “essas pessoas não podem fazer nada” e “é preciso se movimentar”. A singularidade do sujeito fica, então, nos dois casos excluída. Suas possibilidades são obturadas em decorrência do peso deste significante ou seu desejo não é levado em consideração ao se aplicar uma terapêutica sobre os corpos que trata da mesma forma e possui as mesmas expectativas de respostas em todos os casos por meio de uma padronização do sofrimento humano.  Um saber pronto está sempre em jogo e essa é a grande armadilha que sonda todo centro de reabilitação, que pautada no “bem”[16], pode deixar de fora o mais valioso: a singularidade de cada um.
Quanto a isso, Lacan já nos advertia: “O bem não poderá reinar sobre tudo sem que apareça um excesso, de cujas conseqüências fatais nos adverte a tragédia.”[17] Lacan[18] ainda pondera que no nível do bem está o nascimento do poder, constituindo, portanto, uma muralha ao desejo, sendo justamente por isso que a ética psicanalítica se desvincula do “serviço dos bens”, da moral e do poder. A psicanálise é uma ética do desejo, que se situa para além do bem, e que não se assemelha a um sistema de prescrições. É, assim, uma ética que consegue se exercer sem que implique em obrigações. É uma “ética do Bem-dizer” e toda “ética é relativa ao discurso.” [19]

A função do analista na reabilitação

            Na perspectiva que garantir os direitos da pessoa com deficiência e regulamentar as práticas institucionais nesse campo, está estabelecido por lei que:Durante a reabilitação, será propiciada, se necessária, assistência em saúde mental com a finalidade de permitir que a pessoa submetida a esta prestação desenvolva ao máximo suas capacidades.”[20] Considerando que o psicanalista pode, então, se inserir na equipe de reabilitação a partir desta abertura para “assistência em saúde mental”, questiona-se, contudo, o que se espera de sua atuação. Ou seja, uma prática normatizadora, educativa,  de desenvolver capacidades visando à integração na sociedade, pautadas, assim, em um saber totalitário a respeito da deficiência.
            No avesso dessas operações, o discurso do analista opõe-se a toda tendência de dominação, de em saber pronto, indicando uma verdade. O analista procura fazer com o que o analisante construa seu próprio saber, descartando alguns significantes,  identificações e ideais, ao qual estava capturado e produzindo outros significantes próprios. O psicanalista interroga o paciente em sua posição subjetiva e este sujeito é incitado a produzir um saber não sabido, o impossível de saber, mas constituinte – o  inconsciente, que leva em consideração a causa de seu desejo.
Diante disso, de maneira mais específica, coloca-se como questão a função do psicanalista diante do processo de reabilitação e dos impasses vividos nesse campo. Como observa Lambert[21] a respeito do trabalho na instituição, esta função, precisamente, estar em saber como a psicanálise pode esclarecer e orientar a prática institucional. Sobre isso, Di Ciaccia tem uma indicação precisa:
O que a psicanálise nos ensina é [...] localizar com justeza os diferentes discursos e como pôr em prática o giro de um a outro. Se uma instituição deseja fazer referência à psicanálise é para permitir a circulação desses discursos, e não para impor um significante psicanalítico ou um saber do inconsciente, suspostamente divinatório a quem não o solicitou[22]

Kruszel aponta que o psicanalista está na cultura numa posição anti-herói, “já que não busca liberar a massa, mas sim uma tarefa mais humilde, a de tentar dissolver, em cada um, a captura coletivizadora realizada pelo anônimo muro da linguagem” [23].  A psicanálise não conseguirá jamais desembaraçar o social e a massa de seus conflitos e nem se dispõe a isso. Os significantes estão postos e os discursos que os perpertuam também. Podemos, sim, questioná-los. Uma instituição de reabilitação se organiza e se estrutura com seu saber e sua ação terapêutica a partir desses discursos,  e seria ingênuo supor que a solução estaria em abrir mão deles, visto a necessidade desse tipo de tratatamento para os pacientes que tiveram suas funções motoras e intelectivas alteradas. Espera-se, contudo, que o psicanalista faça vacilar alguns desses siginficantes e sustente o impossível de se educar, sobretudo os corpos.  Toda questão coloca-se em fazer os discursos circularem, abrindo espaço para o que excede aos padrões e às normas, comportando a fuga de sentido e levando em conta o caso a caso.
Kruszel fala, então, de uma intervenção que esteja em jogo a reinserção do sujeito “no lugar de participação responsável na desordem do mundo” [24].  O analista suporta, com sua presença e seu ato, um trabalho no qual leva cada paciente confrontar-se com o caráter das determinações inconscientes e com as identificações a que alienados se constituíram, separando-se dos sentidos plenos e tolerando mexer nas posições enraizadas que se encontravam. Igualmente, Laurent comenta:
trata-se de despertar o sujeito para uma nova responsabilidade, inédita, que o liga, para além do assujeitamento a significantes mestres, à sua responsabilidade para com o objeto mais-de-gozar, que a um só tempo se sustenta no vazio deixados pelos significantes mestres e o preenche.[25]


A esse respeito, lembro-me de João, um adolescente de 15 anos, que atendi num período de um ano, mas que fazia tratamento na instituição desde criança com diagnóstico de epilepsia e “deficiência mental leve”. Um caso grave não tanto pelo motivo que acarretou a procura de atendimento na instituição, mas por ser um paciente que vinha se colocando de forma recorrente em riscos de vida e que se mostrava por vezes agressivo, especialmente com sua mãe.
  No período em que o acompanhei, João  começou a se questionar se era “deficiente”, que se desdobrava também para “maluco” e “inválido” – lugar que sua mãe sempre o engessou e que o colocava em dificuldades para interpretar o que ele representava no desejo do Outro.[26] Durante muito tempo, João ficou colado aos significados que vinha do Outro, obtendo, assim, um ponto de fixação, já que a cadeia significante estava congelada encarcerando o sujeito.[27]  
Ao começar a se descolar, João passou a dizer que já não queria que o transporte da prefeitura fosse lhe buscar em casa para o tratamento, pois desejava poder pagar a passagem de ônibus. Esse transporte tinha afixado o símbolo de “deficiente” e era esse significante que ele queria fazer cair. Sua mãe recebia um benefício assistencial do governo em seu nome (por ele ser “deficiente”), que João dizia ser uma “aposentadoria” e isso era totalmente fora-de-sentido para ele. A princípio, queixava-se dizendo que o dinheiro era dele e que a mãe nunca lhe dava quando queria comprar alguma coisa. Com um tempo, passou a dizer que não queria também esse dinheiro. Dizia querer trabalhar, ter seu lar, casar-se, bem como começou a pensar em fazer cursos profissionalizantes. Em meio a esse intenso trabalho psíquico, foi discutido em equipe que o processo de reabilitação tinha sido concluído e que ele já estava em condições de alta. Sua mãe, porém, sustentava que ele ainda precisava de “psicologia”, em função do que ela imaginariamente acreditava ser o trabalho, a saber: educar e colocá-lo na norma. Essa demanda demonstrava que a invasão maciça do Outro não cessava de se fazer presente para ele.
Ainda que o próprio João julgasse importante o trabalho analítico, visto a necessidade de falar sobre a relação conflituosa que mantinha com a mãe,  ir para qualquer outro espaço de tratamento era, para ele, submeter-se aos caprichos maternos e uma sentença de que ainda era deficiente e não podia responder por si.  Mesmo com tempo para trabalhar a alta institucional, esse ponto permaneceia em aberto e era preciso um ato. Diante disso, colocou-se como questão: sustenar ou não o encaminhamento para outro serviço? Apesar de considerar a gravidade do caso, bem como o momento fundamental do trabalho, fazer esse encaminhamento era não ouvir o sujeito e perpetuá-lo numa posição de objeto de cuidados, de “deficiente”.  Apostei em não encaminhar, pois não podia fazer da psicanálise um “bem que leva ao pior.”[28], opondo de maneira radical ao que se busca operar com o discurso analítico.
Para minha surpresa, depois de um tempo, encontrei-me com sua mãe. Em meio às intensas queixas que sempre fazia do filho, ela  me contou que ele estava trabalhando e estudando. Seria algum esboço de modificação na posição subjetiva e na forma de gozo de João? Sem garantia alguma, continuo apostando. 







[1] Refiro-me à Associação Fluminense de Reabilitação – instituição que realiza atendimento ambulatorial e tem como proposta atuar com equipe interdisciplinar, na qual grande parte da clientela possui alguma deficiência, seja ela congênita ou adquirida, temporária ou permanente.
[2] SANTOS, Andréia. Sujeito Deficiente: a diferença indestrutível e criadora. Dissertação de Mestrado - Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica em Psicanálise, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2002 b.
[3]Decreto 3298/99. Disponível em: http://conselho.saude.gov.br/Web_comissoes/cieh/doc/Decreto_3298_20_12_99.doc. Acesso em: 27/08/2013.
[4] JEANNOT, Kristell. De um outro olhar sobre a deficiência. In: Lacan cotidiano, n° 211, Paris, maio de 2012. Disponível em: http://ampblog2006.blogspot.com.br/2012/06/lacan-cotidiano-n-211-portugues.html. Acesso em 10/01/2014.
[5] LACAN, J. Seminário 17 -  O avesso da psicanálise. (1969-70) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1992.
[6] Ibid.
[7] JEANNOT, Kristell. De um outro olhar sobre a deficiência. In: Lacan cotidiano, n° 211, Paris, maio de 2012. Disponível em: http://ampblog2006.blogspot.com.br/2012/06/lacan-cotidiano-n-211-portugues.html. Acesso em: 10/01/2014.
[8] LACAN, Jacques. Televisão (1973). In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
[9] SANTOS, Andréia. Sujeito Deficiente: a diferença indestrutível e criadora. Dissertação de Mestrado - Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica em Psicanálise, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2002 b..
[10] ARIAS, Laura. Corpo e biopolítica. In: Textos do VI ENAPOL – Falar com o corpo. A crise das normas e a agitação do real. Disponível em:  http://www.enapol.com/pt/Textos.pdf. Acesso em: 09/02/2014.
[11] Ibid.
[12] Ibid.
[13] JEANNOT, Kristell. De um outro olhar sobre a deficiência. In: Lacan cotidiano, n° 211, Paris, maio de 2012. Disponível em: http://ampblog2006.blogspot.com.br/2012/06/lacan-cotidiano-n-211-portugues.html. Acesso em 10/01/2014.
[14] FREUD, Sigmund. Reflexões para o tempo de guerra e morte. (1914) In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira. Rio de janeiro: Imago Ed., 1996. v. XIV.
[15] SANTOS, Andréia. O discurso do analista no processo de reabilitação: uma proposta de trabalho. In: DORIS, R.; JORGE, M. A. C. (Orgs.). Saber, verdade e gozo: leituras de O Seminário, livro 17, de Jaques Lacan. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2002 a. p. 165-172.
[16] Convém destacar que muitos centros de reabilitação no Estado do Rio são instituições filantrópicas e ,portanto, a dimensão do bem e da caridade é aí evocada. 
[17] LACAN, Jacques.  Seminário 7 – A Ética da psicanálise (1959-60). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997, p. 314.
[18] Ibid.
[19] LACAN, Jacques. Televisão (1973). In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,2003.
[20] Decreto 3298/99. Disponível em: http://conselho.saude.gov.br/Web_comissoes/cieh/doc/Decreto_3298_20_12_99.doc. Acesso em: 27/08/2013.
[21] LAMBERT, Anamaria. Prática Lacaniana em instituição. In: Latusa. Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, n° 3, out./2003. Disponível em: <www.latusa.com.br/digital_edit3.htm>. Acesso em: 01/07/2013.
[22] DI CIACCIA, Antonio. A criança e a instituição. In: Mello, Marcia e Altoé, Sonia (orgs.) Psicanálise, Clínica e Instituição . Rio de Janeiro: Rio Ambiciosos, 2005, p. 24.
[23] Kruszel, Lilian. Esclarecer a função da psicanálise In: HARARI, CADERNAS & FRUGER (org.) Os usos da psicanálise: primeiro encontro americano do Campo Freudiano. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2003, p. 65.
[24] Ibid.
[25] LAURENT, Éric. Dois aspectos da torção entre sintoma e instituição. In: HARARI, CADERNAS & FRUGER (org.) Os usos da psicanálise: primeiro encontro americano do Campo Freudiano. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2003,p. 89.
[26] BORSOI, Paula. Da deficiência à debilidade: a loucura que estrutura. In: Arquivos da biliblioteca 8 – Ebp-Rio. Rio de Janeiro, 2011, p. 52.
[27] Ibid.
[28] LACAN, Jacques. Televisão (1973). In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,2003, 539.