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domingo, 26 de outubro de 2014

Texto: Reflexões psicanalíticas sobre o “Transtorno de Pânico”

Reflexões psicanalíticas sobre o “Transtorno de Pânico” 
                      

 Por Flavia Bonfim 


            Atualmente, temos observado a descrição pela psiquiatria de novos diagnósticos, como por exemplo, o Transtorno de pânico, dando-nos a impressão que existiriam sintomas propriamente contemporâneos. Essas novidades sintomatológicas nos impõem uma questão, como assinala Nicéas, em seu artigo “Pânico e Angústia”: “Mudaram os sintomas?” E ele próprio responde: “Afirmar que hoje em dia já não existem pacientes como aqueles que procuravam Freud para um tratamento analítico não implica, logicamente, que se leia na queixa de todo paciente atual uma nova formação de sintomas inéditos para a psicanálise.” (2000, p.91)
            Nicéas continua e afirma que não existe equivalência entre queixa e sintoma. As novas queixas são expressões contemporâneas do mal-estar na civilização, contudo, o efeito dessa mudança não possibilita o surgimento daquilo que a psicanálise chama de sintoma, visto que este diz de uma estrutura clínica. Afirmar tal proposição é reconhecer que o sintoma faz parte do laço social e traz as marcas de seu tempo, podendo se “rejuvenescer” e tomar as formas de sua época. De outro modo, podemos dizer que são maneiras novas de os antigos sintomas aparecerem - uma nova roupagem.
            Desse modo, podemos afirmar que o Transtorno de pânico também não é um sintoma inédito para a psicanálise. Muito pelo contrário, ele já havia sido descrito por Freud desde 1895, porém com uma outra nomenclatura, a saber, Neurose de Angústia.
Assim,  partindo das formulação freudianas sobre a angústia e chegando as contribuições de Lacan sobre o assunto, proponho refletir através da psicanalise sobre o que tem sido chamado de Transtorno de Pânico, bem como assinalar a visão psiquiátrica sobre esse transtorno e os motivos que levaram a mesma a propor a invenção desse novo diagnóstico.

Teorias freudianas sobre a angústia


            Nicéas (2000) apresenta o percurso freudiano sobre a angústia a fim de tentar articulá-lo sobre o que hoje em dia tem sido chamado de Transtorno de Pânico. Ele assinala que a interrogação sobre a angústia é precoce em Freud. Em 1994, Freud relacionou angústia e sexualidade. Nessa época, ele também  pensava sobre a neurastenia, afirmando que, assim como a neurose de angústia, ambas tinham origem em uma insatisfação proveniente de uma excitação sexual somática excessiva sem nenhuma representação psíquica. Entretanto, em 1895, Freud separou a neurose de angústia da neurastenia e procurou delimitar essa diferença em termos fenomenológicos.
            Assim, Rabacov (2005), em seu artigo a “Psicanálise e o transtorno de pânico”, descreve o quadro clínico da Neurose de angústia, tal como Freud propõe, por meio dos seguintes sintomas:
§  Irritabilidade Geral
§  Expectativa angustiada – núcleo da neurose e aspecto que a distingue da neurastenia.
§  Ataque de angústia – pode apresentar sozinha ou misturada à fantasias de morte ou de enlouquecimento.
§  Parestesias e alterações de várias funções corporais como respiração, atividade cardíaca e inervação vasomotora.

Nesse período, Freud pensava que o acesso de angústia era uma descarga de excitação sexual física acumulada não satisfeita pela via genital que não podia ser elaborada,  entretanto, com o tempo percebeu que obter satisfação sexual não era suficiente para curar o quadro de angústia e que os sintomas de angústia derivam do mesmo modo que as psiconeuroses de defesa, ou seja, de uma fantasia. Em 1909, Freud retoma novamente a discussão sobre a angústia com o caso Hans.
Freud postulava que Hans apresentava um quadro de histeria de angústia. Esta tinha semelhança estrutural com a histeria, contudo, o afeto, ao invés de ir para o corpo provocando uma conversão, ficava livre, podendo se ligar a um objeto fóbico. Freud dizia que a histeria de angústia se desenvolvia mais no sentido da fobia. Esta era compreendida como uma forma de canalizar a angústia e um trabalho psíquico para ligar a angústia que se tornou livre.
A partir do caso Hans, Freud formula sua primeira teoria da angústia, no qual a articulou com o complexo de castração.  Freud propunha que o medo de cavalo de Hans tenha sido causado por uma superexcitação sexual devida à ternura de sua mãe e que o cavalo representava seu pai e medo do animal se relaciona com a ameaça de punição sofrida pelos maus desejos que ele nutria contra o pai. Para Freud, a ansiedade correspondia a um forte anseio reprimido e como toda ansiedade não tinha um objeto. Mas foi durante um passeio que o medo de que o cavalo o mordesse surgiu. Assim, a ansiedade encontrou um objeto.
Observando as proposições freudiana sobre o caso, Nicéas escreve: “De uma aproximação do objeto fóbico com o pai da criança, Freud extrai o essencial de sua análise da fobia: a permanência do recalque do objeto verdadeiro da angústia, a castração pelo pai, que a resposta fóbica havia canalizado para um objeto de substituição, o cavalo.” (2000, p.100)  Nesse ponto, Freud passa a afirmar, então, que o recalque é o gerador da angústia. E aí está sua primeira teoria da angústia.
Mais tarde, Freud torna a refletir sobre essa temática e, em 1926, no artigo “Inibição, sintoma e angústia”, ele assinala que angústia é um sinal de alarme dado pelo eu e que provoca a fuga pelo sintoma. O perigo é propriamente a ameaça de castração. Esse artigo passa a ser o marco de sua virada na teoria sobre a angústia. Nele, ele pontua que o afeto da angústia não tem origem no recalque, mas no próprio recalacante. A angústia deriva-se da castração e é ela que produz o recalque e não o contrário.

A visão psiquiátrica do Transtorno de Pânico


            Mauro Rabacov (2005) afirma que, segundo Kaplan, Freud foi o primeiro a reconhecer e introduzir o conceito de Neurose de angústia, constituindo uma mescla de sintomas agudos e crônicos. Sendo que o quadro agudo apresenta uma grande similaridade com o Transtorno de pânico, tal como aparece nos manuais de psiquiatria.
            Em 1980, o DSM III abandonou o diagnóstico da neurose de angústia e adotou o de Transtorno de pânico. Até esse momento, segundo Nicéas (2000), havia uma “conversa” entre psiquiatras e psicanalistas, pois a psiquiatria apoiava-se em Freud para falar do quadro clínico de angústia, apesar do tratamento oferecido ser bem distinto. Com essa mudança de nomenclatura, a psiquiatria fez um recorte de fatos clínicos e propôs uma reformulação dos quadros de ansiedade.
            De acordo com o DSM IV,  o diagnóstico do Transtorno de Pânico é dado quando há um ataque de pânico seguido de um mês de preocupação com a possibilidade de ter um novo ataque. O ataque de pânico caracteriza-se por um período de intenso temor ou desconforto no qual 4 dos seguintes sintomas desenvolvem-se abruptamente e alcançam pico em 10 minutos. Eis os possíveis sintomas:


§  Taquicardia                                                             
§  Sudorese
§  Tremores
§  Sensação de falta de ar
§  Desconforto
§  Dor
§  Náusea
§  Tontura, vertigem
§  Desrealização ou despersonalização 
§   Medo de morrer  e/ou de enlouquecer
§  Parestesias
§  Calafrios



Para a psiquiatria, os sintomas do transtorno de pânico estão ligados a um grupo de alterações na estrutura e função cerebral, envolvendo o sistema nervoso e periférico. Nessas alterações, situam os neurotransmissores envolvidos: a noradrenalina e serotonina. Além disso, acreditam que há fatores genéticos envolvidos.
Nicéas (2000) aponta, baseando-se em Mário Costa Pereira,  que a invenção desse novo diagnóstico psiquiátrico se deu em função de um observação clínico experimental, que tomou como referência os trabalhos realizados pelo psiquiatra americano Donald Kein. Este realizou uma pesquisa com o medicamento imipramina, utilizando-o em pacientes com ansiedade crônica e aguda, que constituiam dois grupos, respectivamente. Nesse experimento, ele observou que a imipramina era eficaz no tratamento de pacientes acometidos com crises de angústia agudas, repentinas e inexplicáveis, não obtendo o mesmo resultado com o outro grupo. Por outro lado, com tranqüilizantes habituais, a resposta não era positiva nos grupos com crises agudas.
Costa Pereira observa que a “dissociação farmacológica” possibilitou a criação de uma entidade nosológica que corresponderia a esses novos dados empíricos, que demostra a tendência da psiquiatria a fazer recortes clínicos. Ou seja, de uma dissociação farmacológica no tratamento da angústia, cria-se, então, duas entidades nosológicas: o Transtorno de pânico e o Transtorno de Ansiedade generalizada.

Considerações lacaniana sobre a angústia

            Para Lacan (1962-63), a angústia é estrutural, logo, relaciona-se com a constituição do sujeito. Desse modo, para falar da angústia no sujeito, Rabacov (2005) parte do que está em jogo nessa constituição.
            O sujeito surge imerso no campo do Outro e é efeito de duas operações: alienação e separação. Na alienação, partimos da união de dois conjuntos: o do ser e o do Outro (sentido). O sujeito emerge, então, a partir de uma escolha forçada entre o ser e o sentido, no qual é necessário optar pelo sentido, pois este remete ao Outro da linguagem que constitui o sujeito. Por sua vez, ao escolher o sentido, há uma perda do ser, já que o sujeito advém de outro lugar que não de si mesmo. É em função disso que podemos dizer que o sujeito surge em sua falta-a-ser como efeito do significante. (LACAN, 1964)
            Na separação, há a interseção entre os conjuntos do ser e o do Outro. Na interseção, contudo, não existe nada; é um lugar vazio, onde o sujeito terá sido objeto do desejo do Outro. Aqui, se dá o recobrimento de duas faltas: a do sujeito e a do Outro. O encontro com a falta do Outro, com o desejo do Outro, abre a possibilidade ao sujeito de se identificar com esta falta e ocupar, inicialmente, o lugar do objeto que falta ao Outro, pois esta é a maneira como o sujeito tenta se situar diante do desejo enigmático do Outro. (LACAN, 1964)
            Entretanto, o sujeito constata nessa relação um desencontro - o Outro deseja além dele; o sujeito não consegue tamponar o desejo do Outro. Isso permite ao sujeito sair do lugar de objeto e escolher por se tornar desejante. As conseqüências dessa operação é um resto, que é o objeto a  - causa do desejo. (LACAN, 1964)

            É na tensão entre o sujeito e o objeto a que podemos situar a angústia. Esta é testemunha do objeto real que está em causa no sujeito. Rabacov (2005) a descreve como um sinal de perigo vindo de um lugar onde o sujeito desconhece, inarticulável, ponto de inflexão da cadeia significante. A angústia é o índice da presença do objeto a. Isso porque desvela a falta, a incompletude, o furo, o desejo enigmático do Outro, a ausência da relação sexual. No centro da angústia está a dimensão da falta. Falta, esta, impossível de ser tamponada por nenhum objeto.
Assim, podemos dizer que a angústia é estrutural; ela provém daquilo que está para todo sujeito – o objeto causa do desejo e a dimensão da falta. Contudo, ela pode estar mais intensa no sujeito tal como nos denuncia no ataque de pânico quando o encontro com o real, com o furo, é excessivo.    

BIBLIOGRAFIA:

  • LACAN, Jacques. Seminário 10 – A angústia (1962-63). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.

  • ______ Seminário 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

  • NICEAS, C. A. Pânico e angústia. In:  Latusa – Rio de Janeiro: Revista da Escola Brasileira de Psicanálise,  no 4/5,2000.

  • RABACOV, M. “A psicanálise e o transtorno de pânico”. In: O objeto da angústia. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2005.




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