Psicóloga / Psicanalista Flavia Bonfim - Atendimento - Cursos - Eventos - Textos
Contatos: (21) 98212-6662 / 2613-3947 (Secretária eletrônica)
terça-feira, 13 de fevereiro de 2018
sábado, 27 de janeiro de 2018
NOVA PUBLICAÇÃO: O QUE NOS ENSINA O FORT-DA SOBRE O BRINCAR EM ANÁLISE?

Minha mais nova publicação já pode ser encontrada na REVISTA MARRAIO - 32/33:
O QUE NOS
ENSINA O
FORT-DA SOBRE O BRINCAR
EM ANÁLISE?
RESUMO: Este artigo visa apresentar o
jogo Fort-Da presente no texto de
Freud Além do princípio de Prazer e
ampliar sua discussão a partir da leitura de Lacan sobre a compulsão à
repetição. Tal consideração lacaniana nos leva a tomar o brincar em análise
como linguagem e discurso determinado pela insistência da cadeia significante,
mas também como ato da ordem do encontro com o real, na medida em que através
da brincadeira a criança expressa o traumático, seu mal-estar e sofrimento.
Nesse sentido, podemos tomar o brincar como um saber-fazer diante dos impasses
que se colocam em torno sua existência .
sábado, 7 de outubro de 2017
JORNADAS CLÍNICAS DA EBP-Rio/ICP-RJ - LOUCURAS E AMORES NA PSICANÁLISE
Sobre as XXV Jornadas
Loucuras e amores na psicanálise intitula a reflexão clínica que propomos, inspirados no programa de investigação sobre as psicoses no Campo Freudiano. As psicoses, tanto quanto as neuroses, são loucuras do falante. As diferentes estruturas clínicas são respostas delirantes ao real irrepresentável.
“Todo mundo é louco”, afirmou Lacan, se é que no discurso analítico se pode propor algum universal. De fato, uma tal generalização decorre da experiência da psicanálise, que consiste em acolher a loucura de cada um no trabalho sob transferência.
O laço analítico se funda num amor novo que o dispositivo freudiano instalou.
Para essas Jornadas, convidamos os analistas de nossa comunidade a testemunhar, com breves relatos, como se configuram esses laços hoje, como se articulam o singular de um caso e o particular de uma classe e, ainda, como as patologias amorosas convocam o analista em sua prática.
Angela C. Bernardes
Diretora da EBP-Rio
Diretora da EBP-Rio
_______________
O tema de nossas próximas Jornadas, Loucuras e amores na psicanálise, toca em um ponto importante da experiência clínica, política e epistêmica da psicanálise, que é a aposta no sintoma como forma de tratamento do gozo para tornar possíveis os laços sociais. Essa aposta tem consequências na forma como o analista acolhe o mal-estar de seus pacientes, como também na forma como ele se situa no jogo político de sua época, acolhendo o que não está conforme às normas pré-estabelecidas, o que segrega, exclui, esmaga as possibilidades inventivas de cada um para lidar com o que se apresenta como imperativos mortíferos.
O gozo impossível de ser eliminado pode servir como ponto de orientação, mas também de enlouquecimento, se ele não puder ser acolhido como força vital na construção do sintoma a partir dos recursos, os mais variados, que se apoiam no que Lacan se referiu como a pluralização dos Nomes-do-Pai.
O analista é aquele que está atento aos pequenos detalhes que indicam a forma como cada um, neurótico ou psicótico, trabalha para lidar com esses imperativos. A forma de lidar com eles se apresenta, às vezes, como um excesso de normalidade, que não permite ser tocada e, outras vezes, como desvarios que assustam. Deixar-se surpreender por essas modalidades diversas de tratamento do gozo, sem encaixá-las muito rapidamente em um diagnóstico, é o que vai permitir surpreender o núcleo traumático no encontro de cada um com a linguagem. E, poder se dispor ao jogo transferencial que se apoia no amor, não sem a contrapartida do ódio, permite estar atento ao que pode advir daí como sintoma.
E o inconsciente? Como situá-lo no sintoma? Como surpreendê-lo nas loucuras e nos amores na psicanálise? Em que medida o inconsciente continua sendo nosso referencial para irmos do gozo ao sintoma de cada um? O trabalho dos associados do ICP sobre o tema inconsciente e sintoma poderá ser lembrado para trazer uma contribuição ao tema destas Jornadas.
Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros
Diretora ICP-RJ
Diretora ICP-RJ
_______________
COORDENAÇÃO
Andréa Reis Santos e Angela Batista
COMISSÕES ORGANIZADORAS DAS XXV JORNADAS
- Comissão Científica
Ângela Negreiros
Maria Silvia Garcia Fernandez Hanna (coordenação)
Paula Borsoi
Romildo do Rêgo Barros
Ruth Cohen
Maria Silvia Garcia Fernandez Hanna (coordenação)
Paula Borsoi
Romildo do Rêgo Barros
Ruth Cohen
- Comissão de Divulgação e Mídia
Deborah Uhr
Francisca Menta
Maria Corrêa
Mariana Pucci
Marina Morena
Marina Sereno
Renata Martinez (coordenação)
Thereza De Felice
Francisca Menta
Maria Corrêa
Mariana Pucci
Marina Morena
Marina Sereno
Renata Martinez (coordenação)
Thereza De Felice
- Comissão de Secretaria de Inscrições
Camila Drubscky
Luiza Sarrat Rangel
Roberta D’Assunção (coordenação)
Luiza Sarrat Rangel
Roberta D’Assunção (coordenação)
- Comissão de Livraria
Anna Carolina Nogueira (correspondente em Buenos Aires)
Clara Reis
Ingrid Valério
Leonardo Miranda (coordenação)
Patricia Paterson (coordenação)
Clara Reis
Ingrid Valério
Leonardo Miranda (coordenação)
Patricia Paterson (coordenação)
- Comissão de Tesouraria
Vicente Machado Gaglianone (coordenação)
- Comissão de Infraestrutura Local
Anna Luiza de Almeida e Silva
Carolina Dutra
Elena Lerner
Michelle Pastorini
Carolina Dutra
Elena Lerner
Michelle Pastorini
Para mais informações acesso o link:
terça-feira, 8 de agosto de 2017
Jornada da AFR - "A Ética psicanalítica e seus desdobramentos clínicos"
V Jornada da Psicologia da Associação Fluminense de Reabilitação
TEMA: A ÉTICA PSICANALÍTICA E SEUS DESDOBRAMENTOS CLÍNICOS
DIA: 26/08/1017 (SÁBADO)
HORÁRIO: 8:30 às 17:00 h
LOCAL: AFR
ABERTURA: EDMÉA ROQUE
Psicanalista Membro da Praxis Lacaniana
EIXOS TEMÁTICOS:
1) Ética lacaniana
2) Desejo do analista
3) Fenômenos psicossomáticos e manifestações corporais
4) Perda, confronto com a morte e reflexões sobre o suícidio
5) Autismo
Valor: R$ 20,00 (Vinte reais), com certificado.
Inscrições no NEPP (AFR) - 2109-2626 (Rafael)
sexta-feira, 31 de março de 2017
CANAL YOUTUBE: "FALANDO NISSO"
Recentemente, encontrei no youtube um canal chamando "Falando nisso" com Christian Durker, que se propoe a falar sobre temas psicanalíticos a partir de questionamentos do público.... Adorei!!!! Recomendo. Uma linguagem fácil e acessível sem deixar de tocar em temas complexos. Vale a pena conferir!
sábado, 28 de janeiro de 2017
Artigo: “INTOCÁVEIS”: sobre a marca da deficiência e a psicanálise no campo da reabilitação.
“INTOCÁVEIS”:
sobre a marca da
deficiência e a psicanálise no campo da reabilitação.*
Por Flavia Bonfim
*Artigo publicado na Revista Latusa - Revista da Escola Brasileria de Psicanálise - Seçao-Rio, n. 19 - agosto de 2014
“Intocáveis” – um belíssimo filme francês, baseado em fatos reais, que
narra a história de como o feliz encontro entre Philippe e Driss, relançou
e reposicionou tais sujeitos na vida.
Philippe, um milionário – que após um acidente de parapente, fica tetraplégico;
e Driss, aquele que inesperadamente veio a se tornar seu cuidador. Sirvo, então,
deste filme para pensar a prática em que me encontro, a saber: a psicanálise
numa instituição de reabilitação física e intelectual[1],
destacando de modo especial dois trechos do longa-metragem que me parecem ser
bem oportuno: o primeiro diz respeito ao processo de seleção dos canditados a
enfermeiro/cuidador; e o segundo, quando Philippe é questionado por sua
escolha.
O filme “Intocáveis”
É curioso constatar que, de todos os candidatos,
Philippe tenha escolhido Driss – justamente o que não tinha nenhuma experiência
para exercer tal função e que muito menos estava interessado em ocupar o cargo. Dos canditados ali ilustrados, todos tinham
certificados, cursos de capacitação e/ou diploma que atestavam seu “saber” para
exercer o trabalho, todavia, como muita sutilieza, as imagens revelam o modo
como a pessoa com deficiência é tomada por eles, ou seja, unicamente como
“objeto” a ser cuidado. Com exceção de Driss, nenhum deles dirigiu seu olhar ou
sua palavra para Philippe.
Com jeito peculiar e implusivo, Driss causou espanto
sobre aqueles que viviam ao redor de Philippe – sendo inclusive este
questionado por sua escolha e alertado quanto aos possíveis perigos de que
estava correndo tendo em vista o passado de Driss, sua condição socio econômica e o fato de,
como morador da periferia, não teria “compaixão” e “piedade” dele. Philippe,
então, responde ser justamente isso que ele quer: alguém que não tenha pena. Driss
não negava a limitação do corpo imposta a Philippe e sem rodeios conseguia
abordar tal assunto, todavia, mais do que isso, ele conseguiu estabelecer um
laço com Philippe cuja deficiência não estava em primeiro plano nem o
definia como pessoa.
É, nesse sentido, que tomar esse filme parece ser bastante norteador para pensar as
implicações subjetivas da marca de uma deficiência e para interrogar o trabalho
destinados a esses pacientes no campo da reabilitação, de modo a apontar para
uma especificidade da função no psicanalista nesse contexto instituicional.
“Deficiência”
e processo de reabilitação
É válido considerar que para todo sujeito lidamos com a questão de uma diferença
irredutível e estrutural, que é constantemente velada. Todavia, para aquele que
possui alguma deficiência, essa diferença é tomada a partir do traço biológico,
da marca em seu corpo.[2] Marca, contudo, que não é
qualquer, não apenas pela limitação e por toda dificuldade que ela pode
acarretar, mas especialmente pelo lugar destinados a tais sujeitos na
sociedade. Toda deficiência só
é então definida a partir do que é considerado “normal”. A questão é: o que é
“normal” para o humano? Curioso é que o
decreto que assegura os direitos desses cidadãos testemunhe essa prerrogativa,
ao conceituar a deficiência como “toda perda ou anormalidade
de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere
incapacidade para o desempenho de atividade, dentro do padrão considerado
normal para o ser humano.”[3]
Postula Jeannot:
Este termo fatídico “deficiência” é praticado pelo aparelho
burocrático para estruturar o acompanhamento destas pessoas, mas é importante
não esquecer seu efeito segregativo sobre a sociedade, deixando difícil a
invenção da identidade pelos sujeitos ditos “deficientes”. Como eles gostariam
de ser apresentados, por quais significantes desejariam ser reconhecidos? Um
modo completamente diferente seria percebê-los sobre o tipo da diferença e das
dificuldades, tomados um por um.[4]
Portanto, o significante “deficiente” é universalizante e, como
tal, estar no lugar de um significante mestre. Ao
apresentar o discurso do mestre, Lacan[5]
propõe que o signficante - S1 - intervem no S2, na
bateria significante, no campo do saber e, a partir desta intervenção, ele representa o sujeito. Os
discursos são estruturas sem palavras, no qual relações estáveis se
realizam por meio da estrutura de linguagem.[6]
Para elaborá-los, Lacan serve-se do recurso
da letra (lógica algébrica) e é a rotação (permutação cíclica) nos elementos
que fornece a configuração de cada discurso. Todo discurso possui uma “verdade”
que o move, havendo um “agente” que se direciona a um “outro” a fim de obter
uma “produção”.
Não devemos desconsiderar que o discurso do mestre
representa o discurso do poder, da dominação. O que temos é a apropriação do
saber colocado a funcionar a serviço do mestre. O sujeito no lugar da verdade
encontra-se representado, devendo ser idêntico ao próprio significante, como se
representasse a si mesmo. No caso aqui discutido, o $ é “deficiente”. Essa é a
sua verdade e toda a particularidade do desejo apresenta-se velada.
A partir desse significante, cai sobre o sujeito uma sombra de falha e
imperfeição em sua vertente negativa, como se isto não estivesse de alguma
forma para o humano. A partir, então, deste
significante que vem do Outro, considera Jeannot[7], o sujeito tem seu ser recoberto e, com isso,
toda uma problemática instala-se para conseguir subjetivá-lo, fazendo uso
particular e identificando sua própria dificuldade, sem agarrar-se
completamente a ele. Não podemos esquecer, como assegura Lacan[8],
que a estrutura da linguagem recorta o corpo, podendo não ter nenhuma relação
direta com a anatomia. Cabe pensar as repercussões sobre esse corpo na medida
em que ele é recoberto pelo significante deficiente. Será que o sujeito não corre o risco de
apresentar mais dificuldades do que ele tem? Não é raro testemunharmos isso na
clínica.
É preciso levar em conta que
a noção de deficiência vem responder a
construções históricas que moldaram nossa organização social, conferindo-lhe um
caráter normatizador e sem lugar para a diferença, sobretudo por meio dos
padrões estabelecidos pela sociedade higienista. O que não se aplica aos ideiais
de limpeza, beleza e força, encontra-se,
portanto, deficiente[9].
Como destaca Arias[10],
a “cultura carrega o corpo” e a visão sobre ele “varia de acordo com a cultura, a classe social, as épocas.” Nesse
sentido, ela assinala:
Ao longo da história as práticas sobre o corpo,
e as relações com ele estabelecidas o converteram em referentes da teoria
política, da epistemologia, da filosofia e de diferentes disciplinas. Cada
proposta, cada filosofia, cada episteme tem algo a dizer sobre o corpo. [...] o
corpo humano tem sido objeto de pesquisa, durante séculos, como um texto no qual se inscrevem práticas sociais
e institucionais: cartografia corporal,
atravessada pelo instituído, onde as ideologias escrevem sua história e
encontram seu limite. [11]
Ainda segundo Arias[12],
o corpo passou de “objeto de emoção estética” na Grécia Antiga, depois “fonte
do pecado” na Idade Média, chegando na atualidade como meio de puro gozo e
objeto de consuno. Na contemporaneidade, o corpo tende a ser altamente
idealizado em termos de sua eficiência, visto a associação entre saúde e estética.
O corpo deve seguir os padrões de beleza estabelecidos, tornando-se, portanto,
desejável. Um corpo não deve comportar as marcas do tempo nem apontar para a
doença e a morte. O que não se aplica a isso não tem lugar e, neste ponto, mais
uma vez confirma-se a exclusão daqueles que possuem alguma limitação corporal.
Exclui-se, porque a “deficiência” aponta para o caráter frágil da existência
humana, para a perda e a morte, e, sobretudo, para aquilo que o sujeito busca
evitar: o encontro com a castração.[13]
Freud[14] já dizia
que no fundo ninguém crê em sua própria morte e que no inconsciente cada um de
nós está convencido de sua própria imortalidade.
Respondendo a essas construções históricas e a
produção de subjetividade em torno dela, surge, então, os centros de
reabilitação. De acordo com Santos[15],
a prática
médica, assistencial e pedagógica desses centros consolida-se pautada em
teorias que sistematizam uma normatização dos corpos e um saber construído
através da deficiência. Estruturado por meio de um modelo adaptativo, os
centros de reabilitação possuem, assim, princípios que buscam o ajustamento às
limitações, a compreensão e aceitação da deficiência, a aprendizagem de novos
comportamentos e a adaptação à sociedade.
A dialética entre capacidade
e incapacidade, bem como a educação dos corpos e seus imperativos, pairam sobre esses sujeitos e confirmam os discursos
sobre eles, expresso, sobretudo no filme, nas falas de um dos canditado a
cuidador: “essas pessoas não podem fazer
nada” e “é preciso se movimentar”. A singularidade do sujeito fica, então, nos
dois casos excluída. Suas possibilidades são obturadas em decorrência do peso deste
significante ou seu desejo não é levado em consideração ao se aplicar uma
terapêutica sobre os corpos que
trata da mesma forma e possui as mesmas expectativas de respostas em todos os
casos por meio de uma padronização do sofrimento humano. Um
saber pronto está sempre em jogo e essa é a grande armadilha que sonda todo
centro de reabilitação, que pautada no “bem”[16],
pode deixar de fora o mais valioso: a singularidade de cada um.
Quanto a isso, Lacan já nos advertia:
“O bem não poderá reinar sobre tudo sem que apareça um excesso, de cujas
conseqüências fatais nos adverte a tragédia.”[17]
Lacan[18]
ainda pondera que no nível do bem está o nascimento do poder, constituindo,
portanto, uma muralha ao desejo, sendo justamente por isso que a ética
psicanalítica se desvincula do “serviço dos bens”, da moral e do poder. A
psicanálise é uma ética do desejo, que se situa para além do bem, e que não se
assemelha a um sistema de prescrições. É, assim, uma ética que consegue se
exercer sem que implique em obrigações. É uma “ética do Bem-dizer” e toda
“ética é relativa ao discurso.” [19]
A função do
analista na reabilitação
Na perspectiva que garantir os direitos da pessoa com deficiência e
regulamentar as práticas institucionais nesse campo, está estabelecido por lei
que: “Durante a reabilitação, será
propiciada, se necessária, assistência em saúde mental com a finalidade de
permitir que a pessoa submetida a esta prestação desenvolva ao máximo suas
capacidades.”[20]
Considerando que o psicanalista pode, então, se inserir na equipe de
reabilitação a partir desta abertura para “assistência em saúde mental”,
questiona-se, contudo, o que se espera de sua atuação. Ou seja, uma prática
normatizadora, educativa, de desenvolver
capacidades visando à integração na sociedade, pautadas, assim, em um saber
totalitário a respeito da deficiência.
No avesso dessas operações, o
discurso do analista opõe-se a toda tendência de dominação, de em saber pronto,
indicando uma verdade. O analista procura fazer com o que o analisante construa
seu próprio saber, descartando alguns significantes, identificações e ideais, ao qual estava capturado
e produzindo outros significantes próprios. O psicanalista interroga o paciente
em sua posição subjetiva e este sujeito é incitado a produzir um saber não
sabido, o impossível de saber, mas constituinte – o inconsciente, que leva em consideração a causa
de seu desejo.
Diante disso, de maneira mais específica, coloca-se como
questão a função do psicanalista diante do processo de reabilitação e dos
impasses vividos nesse campo. Como observa Lambert[21]
a respeito do trabalho na instituição, esta função, precisamente, estar em
saber como a psicanálise pode esclarecer e orientar a prática institucional.
Sobre isso, Di Ciaccia tem uma indicação precisa:
O que a psicanálise nos ensina é [...] localizar com justeza os
diferentes discursos e como pôr em prática o giro de um a outro. Se uma
instituição deseja fazer referência à psicanálise é para permitir a circulação
desses discursos, e não para impor um significante psicanalítico ou um saber do
inconsciente, suspostamente divinatório a quem não o solicitou[22]
Kruszel aponta que o psicanalista está na cultura numa
posição anti-herói, “já que não busca liberar a massa, mas sim uma tarefa mais
humilde, a de tentar dissolver, em cada um, a captura coletivizadora realizada
pelo anônimo muro da linguagem” [23].
A psicanálise não conseguirá jamais
desembaraçar o social e a massa de seus conflitos e nem se dispõe a isso. Os
significantes estão postos e os discursos que os perpertuam também. Podemos,
sim, questioná-los. Uma instituição de reabilitação se organiza e se estrutura
com seu saber e sua ação terapêutica a partir desses discursos, e seria ingênuo supor que a solução estaria
em abrir mão deles, visto a necessidade desse tipo de tratatamento para os
pacientes que tiveram suas funções motoras e intelectivas alteradas. Espera-se,
contudo, que o psicanalista faça vacilar alguns desses siginficantes e sustente
o impossível de se educar, sobretudo os corpos.
Toda questão coloca-se em fazer os discursos circularem, abrindo espaço
para o que excede aos padrões e às normas, comportando a fuga de sentido e
levando em conta o caso a caso.
Kruszel fala, então, de uma intervenção que esteja em
jogo a reinserção do sujeito “no lugar de participação responsável na desordem
do mundo” [24]. O analista suporta, com sua presença e seu ato,
um trabalho no qual leva cada paciente confrontar-se com o caráter das
determinações inconscientes e com as identificações a que alienados se constituíram,
separando-se dos sentidos plenos e tolerando mexer nas posições enraizadas que
se encontravam. Igualmente, Laurent comenta:
trata-se de despertar o sujeito para uma nova responsabilidade, inédita,
que o liga, para além do assujeitamento a significantes mestres, à sua
responsabilidade para com o objeto mais-de-gozar, que a um só tempo se sustenta
no vazio deixados pelos significantes mestres e o preenche.[25]
* O restante do artigo é composto por um caso clínico, podendo ser encontrado sua versão completa na REVISTA LATUSA 19.
[1] Refiro-me à Associação
Fluminense de Reabilitação – instituição que
realiza atendimento ambulatorial e tem como proposta atuar com equipe
interdisciplinar, na qual grande parte da clientela possui alguma deficiência,
seja ela congênita ou adquirida, temporária ou permanente.
[2] SANTOS, Andréia. Sujeito Deficiente: a diferença indestrutível e criadora.
Dissertação de Mestrado - Programa de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica em
Psicanálise, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2002 b.
[3]Decreto
3298/99. Disponível em:
http://conselho.saude.gov.br/Web_comissoes/cieh/doc/Decreto_3298_20_12_99.doc.
Acesso em: 27/08/2013.
[4] JEANNOT, Kristell. De um outro olhar sobre a deficiência. In: Lacan cotidiano, n° 211, Paris, maio de
2012. Disponível em: http://ampblog2006.blogspot.com.br/2012/06/lacan-cotidiano-n-211-portugues.html.
Acesso em 10/01/2014.
[5] LACAN, J. Seminário 17
- O avesso da psicanálise. (1969-70) Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor,1992.
[6] Ibid.
[7] JEANNOT,
Kristell. De um outro olhar sobre a
deficiência. In: Lacan cotidiano, n°
211, Paris, maio de 2012. Disponível em:
http://ampblog2006.blogspot.com.br/2012/06/lacan-cotidiano-n-211-portugues.html.
Acesso em: 10/01/2014.
[8] LACAN,
Jacques. Televisão (1973). In: Outros
escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
[9] SANTOS,
Andréia. Sujeito Deficiente: a
diferença indestrutível e criadora. Dissertação de Mestrado - Programa
de Pós-Graduação em Pesquisa e Clínica em Psicanálise, Universidade do Estado
do Rio de Janeiro, 2002 b..
[10] ARIAS,
Laura. Corpo e biopolítica. In: Textos do
VI ENAPOL – Falar com o corpo. A crise das normas e a agitação do real.
Disponível em:
http://www.enapol.com/pt/Textos.pdf. Acesso em: 09/02/2014.
[11] Ibid.
[12] Ibid.
[13] JEANNOT,
Kristell. De um outro olhar sobre a
deficiência. In: Lacan cotidiano, n°
211, Paris, maio de 2012. Disponível em:
http://ampblog2006.blogspot.com.br/2012/06/lacan-cotidiano-n-211-portugues.html.
Acesso em 10/01/2014.
[14] FREUD,
Sigmund. Reflexões para o tempo de guerra e morte. (1914) In: Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Edição standard brasileira.
Rio de janeiro: Imago Ed., 1996. v. XIV.
[15] SANTOS,
Andréia. O discurso do analista
no processo de reabilitação: uma proposta de trabalho. In: DORIS, R.; JORGE, M.
A. C. (Orgs.). Saber, verdade e gozo: leituras de O Seminário, livro 17, de Jaques Lacan. Rio
de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2002 a. p. 165-172.
[16] Convém
destacar que muitos centros de reabilitação no Estado do Rio são instituições
filantrópicas e ,portanto, a dimensão do bem e da caridade é aí evocada.
[17] LACAN, Jacques. Seminário 7 – A Ética da psicanálise
(1959-60). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997, p. 314.
[18] Ibid.
[19] LACAN,
Jacques. Televisão (1973). In: Outros
escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,2003.
[20] Decreto
3298/99. Disponível em:
http://conselho.saude.gov.br/Web_comissoes/cieh/doc/Decreto_3298_20_12_99.doc.
Acesso em: 27/08/2013.
[21] LAMBERT,
Anamaria. Prática Lacaniana em instituição. In : Latusa. Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, n° 3, out./2003. Disponível em: <www.latusa.com.br/digital_edit3.htm>.
Acesso em: 01/07/2013.
[22] DI
CIACCIA, Antonio. A criança e a instituição. In: Mello, Marcia e Altoé, Sonia
(orgs.) Psicanálise, Clínica e
Instituição . Rio de Janeiro: Rio Ambiciosos, 2005, p. 24.
[23] Kruszel,
Lilian. Esclarecer a função da psicanálise In: HARARI, CADERNAS & FRUGER
(org.) Os usos da psicanálise: primeiro
encontro americano do Campo Freudiano. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria,
2003, p. 65.
[24] Ibid.
[25] LAURENT,
Éric. Dois aspectos da torção entre sintoma e instituição. In: HARARI, CADERNAS
& FRUGER (org.) Os usos da
psicanálise: primeiro encontro americano do Campo Freudiano. Rio de
Janeiro: Contra Capa Livraria, 2003,p. 89.
[26] BORSOI,
Paula. Da deficiência à debilidade: a loucura que estrutura. In: Arquivos da biliblioteca 8 – Ebp-Rio.
Rio de Janeiro, 2011, p. 52.
[27] Ibid.
[28] LACAN,
Jacques. Televisão (1973). In: Outros
escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,2003, 539.
Curso: INTRODUÇÃO AO ENSINO DE LACAN
Curso:
INTRODUÇÃO
AO ENSINO DE LACAN

DATA: 18/03/2017
Sábado - 8:30
às 17:30 h
CONTEÚDO PROGRAMÁTICO COMPLETO:
- Vida e ensino de Lacan
- Do SIR ao RSI
- O Eu e a dimensão imaginária
- Estádio do Espelho; Narcisismo; Eu ideal, Ideal do eu e Supereu
- O Significante e o simbólico
- Inconsciente; Saussure X Lacan; Tres tempos do Édipo e Metáfora paterna
- O sexual, o gozo e o real
- Pulsão; Objeto a; Alienação e Separação; Compulsão à repetição; Fórmulas quânticas da sexuação.
- Primeira e
segunda clínica de Lacan
- Clínica estrutural; Neurose e Psicose; Clínica Borrameana; Sinthoma;
- Ética psicanalítica.
Investimento:
Até dia 10/02 - R$ 180,00
Após dia 10/2 – R$ 200,00
A
inscrição é realizada mediante depósito antecipado.
Dados
bancários: Banco do Brasil
Ag.
72-8 / C/c: 50587-0
Material e certificado incluso
Local: Rua Mem de Sá, 34 (Auditório) – Icaraí – Niterói/RJ
Inscrições e informações:
(21) 98212-6662 / 2613-3947
Coordenação: Flavia Bonfim
Psicóloga. Psicanalista. Mestrado em Pesquisa e Clínica em Psicanalise (UERJ). Especialização em
Psicanálise e Laço Social (UFF). Supervisora do setor de Psicologia Geral da
Associação Fluminense de Reabilitação. Autora de artigos publicados em revistas
cientificas de Psicologia e Psicanálise.
Assinar:
Postagens (Atom)


